DESDE O DIA 7 DE FEVEREIRO DE 1991, NOSSA SENHORA, NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E MUITOS SANTOS E ANJOS APARECEM CONSTANTEMENTE AO JOVEM MARCOS TADEU NA CIDADE DE JACAREI, SÃO PAULO, BRASIL, E COMUNICAM MUITAS MENSAGENS AO MUNDO. SÃO AS MAIS INTENSAS APARIÇÕES DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE E NOSSA SENHORA DISSE QUE VEIO CHAMAR O MUNDO À CONVERSÃO PELA ÚLTIMA VEZ.
MENSAGEM DE NOSSA SENHORA RAINHA E MENSAGEIRA DA PAZ
AO VIDENTE MARCOS TADEU
(Marcos): “Para sempre sejam louvados: Jesus, Maria e José!”
(Maria Santíssima):“Queridos filhos, hoje, quando vocês contemplam o Aniversário da minha Aparição e celebram o Aniversário da minha primeira Aparição em Lourdes à minha filhinha Bernadette, chamo todos vocês novamente à oração com o coração.
Somente com a oração o mundo pode ser salvo. Sim, o mundo terminou de afundar no charco do pecado, da rebelião contra Deus e da perda de sua graça. E somente agora uma grande força de oração poderá alcançar da misericórdia divina o milagre que reconduzirá a humanidade à estrada da salvação.
Sim, por isso vocês devem agora rezar o Rosário, rezar as Mil Ave-Marias mais do que nunca, para que assim, vocês me ajudem poderosamente a atrair todos os meus filhos que estão perdidos no pecado de volta ao Senhor que a todos quer salvar.
Sim, a minha voz materna ecoou na Gruta de Lourdes para chamar todos os meus filhos à salvação. E aqui na minha segunda e nova Lourdes, venho novamente para repetir o meu veemente apelo à conversão e à penitência.
Penitência! Penitência! Penitência!
Façam penitência dos pecados de vocês e dos pecados do mundo inteiro.
Penitência! Penitência! Penitência!
Convertam-se, mudando as suas vidas e rezando e ajudando a todos também, para que se convertam e voltem ao caminho da oração e da salvação.
Penitência! Penitência! Penitência!
Deixe cada um seu mal caminho e volte a Deus pelo caminho da oração, da conversão, da santidade, do amor a Deus.
Sim, a minha voz materna continuará aqui ainda chamando os meus filhos por algum tempo. Mas convertam-se depressa meus filhos, porque o tempo da conversão se esgota e em breve o Pai vai descarregar a sua justa Ira sobre o mundo inteiro.
Sim, o Senhor até agora tem esperado com paciência, mas quantos têm ignorado a voz dele e quantos a tem desprezado. O pai não pode suportar isso por mais tempo, por isso, ele enviará o grande castigo.
Com as minhas lágrimas de sangue, com as minhas dores e as minhas súplicas eu tenho aplacado a cólera do Senhor a cada dia e tenho atrasado o grande castigo, mas não poderei detê-lo para sempre.
Por isso, convertam-se sem demora antes que termine o tempo da graça e da misericórdia para o mundo inteiro.
Somente eu com as minhas lágrimas posso ainda alcançar do Pai a misericórdia para o mundo, unam-se a mim rezando o meu Rosário, rezando as Mil Ave-Marias incessantemente, para que assim, ofereçam um grande poder de oração para comover e tocar o coração do meu filho e alcançar dele perdão e misericórdia.
Em breve as nações terão que beber o cálice da cólera de Deus até o fim, inclusive o Brasil, por isso: Convertam-se! Convertam-se! Convertam-se sem demora!
Que todos os meus filhos vivam a minha mensagem de Lourdes: Mais oração, mais penitência pela conversão dos pecadores, renunciem aos prazeres mundanos e dediquem as suas vidas a servirem a Deus na oração e na penitência.
Imitem a minha filhinha Bernadette e vocês amarão a Deus com todo o coração, me amarão e serão grandes santos.
A todos abençoo, especialmente a você meu filhinho Marcos, muito obrigada por todos os filmes que você fez da minha Aparição em Lourdes, tornando esta minha Aparição conhecida, compreendida, entendida, seguida, vivida, exaltada e glorificada por todos os meus filhos.
Graças a você os meus filhos compreenderam toda a grandeza da minha Aparição em Lourdes, todo o meu poder, toda a minha glória naquelas Aparições e compreenderam finalmente o que eu quero de todos os meus filhos em Lourdes: Mais oração, mais penitência, mais amor a Deus, mais santidade de vida como a da minha filhinha Bernadette.
E que ali em
Lourdes mostrei todo o meu poder de Rainha do Céu e da Terra, de medianeira de todas as graças, saúde dos enfermos, consoladora dos aflitos, refúgio dos pecadores e Mãe poderosa que a nenhum filho despreza ou abandona.
Assim, todos os meus filhos podem sentir o meu amor, conhecer o meu amor e viver o meu amor.
E então, o meu Coração Imaculado pode verdadeiramente liberar a minha chama de amor poderosamente para transformar essa humanidade de uma ante sala do inferno e de um charco de lodo e de pecado num jardim de graça, beleza e santidade para a maior glória da Santíssima Trindade.
E tudo isso devo a você meu querido filhinho, em quem sempre encontro o meu agrado, minhas complacências, sempre encontro alegria, obediência e verdadeiro amor.
Continue mostrando ao mundo a glória do meu Coração Imaculado em Lourdes, e então, você apressará muitíssimo o triunfo do meu Coração Imaculado como já o tem feito.
Hoje, no Aniversário da minha Aparição em Lourdes derramo sobre você 18 graças e bençãos especiais. E sobre o seu pai Carlos Tadeu por quem você hoje ofereceu os méritos desses filmes e de tudo o que você fez para tornar a minha Aparição em Lourdes conhecida, derramo agora 18 mil graças especiais que ele recebera todos os dias 11 de cada mês.
Sim, assim recompenso a você, abençoo a você e aquele que você e eu mais amamos.
Sim, alegre-se meu filho, porque a você darei ainda muito mais graças, pois muito mais ainda méritos você terá.
Hoje também, você poderá escolher 11 pessoas sobre quem derramarei 4 graças especiais do meu coração.
Abençoo a todos e a você também meu filhinho Carlos Tadeu, alegre-se porque a você dei um filho em quem manifestei sinais luminosos que nem nos meus filhos mais santíssimos que estiveram sobre a Terra eu manifestei.
Sim, aqui está um filho que é maior do que todos os meus filhos mais santos que estiveram sobre a Terra. Sim, com ele terminarei aquilo que comecei com a minha amada e predileta Bernadette.
Alegre-se, porque a você dei o filho das profecias que tem a chave na mão e que verdadeiramente com ele realizarei e levarei a cabo a grande obra do triunfo do meu Imaculado Coração e com a chave que dei a ele fecharemos o abismo eterno e a estrela do abismo não poderá mais sair para fazer mal à Terra.
Por isso, alegre-se meu filho, a você dei como filho aquele que levará toda a humanidade ao encontro com o meu filho Jesus que vem e que preparará as almas para as núpcias do Cordeiro.
A todos abençoo: de Lourdes, de Pontmain, de Pellevoisin e de Jacareí.”
MENSAGEM DE NOSSA SENHORA APÓS TOCAR OS OBJETOS RELIGIOSOS
(Maria Santíssima): “Conforme já disse, onde quer que um desses terços chegue ali estarei viva, levando comigo as grandes graças do Senhor com os meus filhos Tenoriel e Lenoriel.
A todos abençoo com os meus Anjos que vieram comigo agora e deixo a minha paz.”
Este
texto “A Carta do Além” é muito interessante e de grande valia para
nós, cristãos. É de interesse de todo cristão católico procurar saber
aquilo que leva ao Céu e também, especialmente, o que deixa de levar.
Leia esta carta. Sua visão sobre os acontecimentos da vida não será mais
a mesma…!
Uma Alma em estado de Graça, e outra em pecado mortal.
O autor da presente publicação, no
original alemão, prefere conservar no anonimato, tanto a si como os
demais personagens do acontecimento.
O escrito, entretanto, corre em
prósperas edições, pelas mãos de leitores sempre mais numerosos. Não se
pode lê-lo com indiferença ou só por curiosidade. Aos poucos a gente se
vê, pessoalmente empenhado em uma valorização reflexa, a um tempo de
juízo e de sentimento.
* * * * * * *
Clara era uma moça, falecida ainda
jovem, em um Convento da Alemanha. Entre os papéis que deixou,
encontrou-se o seguinte manuscrito que publicamos, na íntegra, em versão
portuguesa.
Os grifos e anotações são nossos.
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NIHIL OBSTAT
Sancti Pauli, 1-6-1967
Sac. Joannes Roatta SSR
IMPRIMATUR
Sancti Pauli, 9-6-1967
Mons. Lafayette
Vig. Geral
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MANUSCRITO:
Eu tinha uma amiga. Isto é, entramos em
contato, por causa do escritório, onde trabalhávamos uma ao lado da
outra, em uma firma comercial.
Mais tarde Anita se casou e nunca mais a
vi. Afinal, reinava entre nós duas, desde o começo, mais cortesia do
que propriamente amizade. Por isso mesmo, pouco senti sua ausência,
quando ela, após seu casamento, foi morar em um quarteirão de vilas…,
muito longe de minha casa.
Quando no outono de 1937, passava minhas
férias às margens do lago de Garda, escreveu-me minha mãe, pelos fins
da segunda semana de setembro: “veja, Anita N. morreu! Foi vítima de um
acidente de automóvel. Foi sepultada ontem em Waldfriedholf, cemitério
do bosque”.
Esta notícia me espantou. Sabia que
Anita nunca fora muito religiosa. Estaria preparada, quando Deus, assim
de improviso, a chamou?
Na manhã seguinte, assisti a santa missa
por ela, na capela particular da pensão das freiras, onde estava
hospedada, rezei fervorosamente pela paz de sua alma e até ofereci a
Comunhão nesta intenção.
Mas, o dia todo senti um certo mal-estar
que pela tarde aumentou ainda mais. Adormeci inquieta. Enfim, fui
acordada por um violento bater à minha porta. Acendi a luz. O relógio,
sobre o criado, marcava meia-noite e dez. Não vi ninguém. Nenhum barulho
se ouvia pela casa. Somente o das ondas do lago de Garda que se
quebravam monótonas contra a murada do jardim da pensão. De vento, não
se ouvia nem um sopro. E no entanto, ao acordar tinha acreditado
perceber, além das batidas da porta, um rumor de vento semelhante àquele
que se produzia quando meu chefe de escritório, aborrecido, me passava,
de mau jeito, alguma carta.
Refleti por um instante se devia
levantar-me. “Tudo histórias…, disse resolutamente a mim mesma. — É a
tua imaginação excitada depois daquele caso de morte”. Virei-me para o
outro lado, rezei alguns “Pater” pelas almas do purgatório e procurei
dormir…
Mas, senti-me irresistivelmente invadida
por uma sensibilidade interior que se tornava sempre mais lúcida e
nítida, enquanto ao redor de mim a profundidade da noite desvanecia em
uma transparência indefinível que dava a mim mesma e a todas as coisas
circunstantes, um contorno sem espaço, fora do comum.
Levantei-me alucinada e resolvi, mais
depressa do que costumava, descer para a capela da casa, como todas as
manhãs. Ao abrir a porta do quarto, tropecei em um maço de folhas soltas
de papel de carta. Apanhá-las, reconhecer a caligrafia de Anita e dar
um grito foi tudo a mesma coisa.
Tremendo, segurava as folhas na mão.
Compreendia que em tal estado de espírito não seria capaz de rezar nem
sequer um “Pai Nosso” e além disso, subiu-me um sufocamento asfixiante.
Não encontrei melhor recurso que sair ao
ar livre. Arrumei um pouco o cabelo, joguei a carta na bolsa e saí de
casa. Subi por um trilho que, além da estrada principal (a famosa
Gardesana), vai em direção ao monte, entre oliveiras, jardins de
residências e moitas de louros.
A manhã surgia luminosa. Outras vezes, a
cada cem passos, eu me extasiava diante do magnífico panorama que dali
se abre sobre o lago e sobre a ilha do Garda, bela como de fada.
O insondável azul da água me recreava
sempre. Contemplava admirada o cinzento monte Baldo, que, do outro lado,
se eleva lentamente, desde 64 até mais de 2.200 metros acima do nível
do mar. Entretanto, agora, não tinha nenhum interesse por nada disso.
Após um quarto de hora de caminho, me deixei cair, mecanicamente sobre
um banco que se apóia entre dois ciprestes, onde, ainda no dia anterior,
tinha lido, com tanto prazer, a “Jungfer Therese”, de Federer.[1]
Considerei, então, pela primeira vez, os
ciprestes como árvores dos mortos; que, no passado, nas cidades do sul,
onde frequentemente se vêm, não havia jamais suspeitado.
Agarrei a carta. Faltava a assinatura.
Mas, era, com absoluta certeza, a caligrafia de Anita. Não faltava nem
mesmo o grande rabisco ornamental do S e o T à francesa, que ela havia
aprendido no escritório para aborrecer o Sr. Gr.
O estilo não era o dela. Ao menos, não
falava como de costume, pois ela sabia conversar de maneira
extraordinariamente amável e sorrir pelos olhos celestes, com seu belo
narizinho amassado. Só quando discutíamos assuntos de religião podia
tornar-se venenosa e tomar o tom duro desta carta. (E, julgando-a assim,
experimento também a amargura de seu estilo áspero!)
A sua carta do outro mundo eu a reproduzo aqui, palavra por palavra, como a li, então. Dizia assim:
“Clara — não reze por mim! Estou condenada[2].
Se lh’o comunico e lh’o refiro mais longamente, não pense que o faça a
título de amizade. Nós aqui não amamos a mais ninguém. Faço-o como que
forçada. Faço-o como “parte daquela potência que sempre quer o Mal e faz
o Bem”.[3]
Na verdade desejaria vê-la também chegar a este estado onde eu já me aportei para sempre.[4]
Não se aborreça com esta intenção. Nós
aqui todos pensamos assim. Nossa vontade está petrificada no mal — nisto
que vocês, justamente, chamam de “mal”. Mesmo quando nós fazemos algo
de “bem” como eu agora, abrindo seus olhos sobre o inferno, isto não
acontece com boa intenção.[5]
Lembra-se que há quatro anos nos
conhecemos em…? Você tinha, então 23 anos, e estava ali havia já meio
ano, quando eu cheguei. Você me livrou de alguns embaraços. Você me deu,
como a principiante, bons conselhos. Mas, que quer dizer “bom”?
Eu louvava então o seu “amor ao
próximo”. Ridículo! O seu auxílio derivava de pura beatice, como aliás,
já o suspeitava desde aquele tempo.
Nós não conhecemos aqui nada de bom. Em ninguém. O tempo de minha juventude você o conhece. Algumas lacunas eu preencho aqui.
Conforme o plano de meus pais, para
dizer a verdade, eu não deveria ter existido. “Aconteceu-lhes, porém,
esta desgraça”. Minhas duas irmãs já tinham 14 e 15 anos quando eu
nasci.
Antes não tivesse existido! Pudesse eu
agora aniquilar-me e fugir destes tormentos! Nenhuma volúpia igualaria
àquela com que deixaria a minha existência, como um vestido de cinzas
que se perde no nada[6]. Mas, eu devo existir. Devo existir assim como me tornei: com uma existência falida.
Quando Papai e Mamãe, ainda jovens, se
transferiram do campo para a cidade, ambos haviam perdido o contato com a
igreja. Foi até melhor assim. Simpatizaram-se com pessoas afastadas da
igreja. Conheceram-se em uma sala de bailes e, meio ano depois,
“tiveram” que se casar.
Na cerimônia nupcial caiu sobre eles
tanta (!) água benta que mamãe se contentava em ir à igreja, para a
missa dominical, umas duas vezes por ano. Nunca me ensinou a rezar
direito. Esgotava-se nos apertos da vida quotidiana, embora nossa
situação não fosse desfavorável. Palavras como: rezar, missa, água
benta, igreja, eu as escrevo com uma repugnância sem igual.
Detesto tudo isto como detesto quem
frequenta a igreja, e, em geral, todos os homens e todas as coisas. De
tudo, com efeito, nos advém tormento. Todo o conhecimento recebido na
hora da morte, toda lembrança de coisas vividas ou sabidas é, para nós,
uma chama ardente[7]. E todas as
lembranças nos mostram aquele aspecto que nelas, era Graça. Que nós
desprezamos. Que tormento é este! Nós não comemos, não dormimos, não
andamos por nossos pés. Espiritualmente acorrentados, olhamos
imbecilizados “com urros e ranger de dentes”[8] a nossa vida levada aos montes, odiando e atormentados!
Quer saber? – Nós aqui bebemos ódio como água. Também uns para com os outros[9]. Sobretudo, odiamos a Deus.
Quero que você entenda. Os santos no céu
devem amá-Lo, porque eles O vêem sem véu, na sua fulgurante beleza.
Isto os torna de tal maneira felizes que nem se pode descrever. Nós o
sabemos, e este conhecimento nos torna furiosos.[10]
Os homens na terra que conhecem a Deus pela criação e pela revelação podem amá-Lo. Mas não estão obrigados a isto.
Aquele que tem fé — escrevo rangendo os
dentes — que refletindo, contempla Cristo na Cruz, com os braços
abertos, acabará por amá-Lo. Mas, aquele de quem Deus se aproxima só na
desgraça, como punidor, como justo vingador, porque foi um dia, por ele
repudiado, como acontece conosco — este não pode senão odiá-Lo[11].
Com todo o ímpeto de sua pérfida vontade. Eternamente. Por força da
livre resolução de ser separado de Deus: resolução pela qual, morrendo,
matamos nossa alma. Resolução que nem mesmo agora retiramos nem teremos,
jamais, vontade de retirá-la.
Você compreende, agora, por que é que o inferno dura para sempre? Porque nossa obstinação jamais se desligará de nós.
Constrangida — acrescento que Deus é
misericordioso até mesmo conosco. Digo “constrangida”, pois que, mesmo
escrevendo espontaneamente esta carta, nem assim me é permitido mentir,
como quereria. Muitas coisas escrevo no papel contra a minha vontade.
Até mesmo o ímpeto de impropérios que gostaria de vomitar, eu o devo
abafar. Deus foi misericordioso conosco não deixando esgotar na terra
nossa malvada vontade como estávamos dispostos a fazer. Isto teria
aumentado nossas culpas e nossas penas.
Ele nos fez morrer antes do tempo, como
eu, ou fez interferir outras circunstâncias atenuantes. Agora, Ele se
mostra misericordioso conosco, não nos obrigando a aproximar-nos d’Ele
mais do que o estamos, neste remoto lugar infernal. Isto suaviza o
tormento.[12]
Todo passo que me levasse mais perto de
Deus me causaria uma pena maior do que aquela que traria a ti o
aproximar-te de uma fogueira.
Você se espantou, quando eu, certa vez,
durante um passeio, lhe contei que meu pai, alguns dias antes de minha
primeira comunhão, me havia dito: “Anita, procure merecer um belo
vestidinho, porque o resto é exagero e exibição”.
Pelo seu espanto, quase fiquei envergonhada. Agora, me rio disto.
A única coisa razoável naquela exibição
era que só se admitia à Comunhão, aos doze anos. Eu, naquela época, já
me sentia bastante atraída pelos divertimentos do mundo, de modo que,
sem escrúpulos, punha de lado as coisas religiosas, e não dei grande
importância à primeira comunhão. Agora, nos causa furor, que muitos
meninos façam a primeira comunhão aos sete anos. Fazemos tudo para dar a
entender ao povo, que deve faltar às crianças uma instrução adequada.
Elas devem, antes, cometer alguns pecados mortais. Então a partícula
branca não provoca nelas um tão grande dano como quando em seus corações
vivem ainda, a fé, a esperança e a caridade. Chi! Esta coisa recebida
no batismo. Você se lembra, como eu já havia sustentado na terra, tal
opinião.
Fiz referência a meu pai. Ele estava
sempre em atrito com mamãe. Fiz alusão a eles com você, apenas algumas
vezes, porque me causavam vergonha. Coisa ridícula a vergonha do mal!
para nós aqui, tudo é a mesma coisa.
Meus pais nem sequer dormiam mais no
mesmo quarto, eu dormia com mamãe e papai no quarto do lado, onde ele
podia entrar, livremente a qualquer hora da noite. Ele bebia muito; e,
deste modo acabava com o nosso patrimônio. Minhas irmãs estavam ambas
empregadas, e necessitavam, conforme diziam, do dinheiro que ganhavam.
Mamãe começou a trabalhar para ganhar também alguma coisa.
No último ano de sua vida, papai
maltratava muito mamãe quando ela não lhe queria dar alguma coisa. Para
comigo foi sempre carinhoso.
Um dia — eu lhe contei e você ficou
chocada com meu capricho (mas, você não ficou chocada com minhas
referências?) — um dia, ele teve que levar de volta duas vezes, os
sapatos que comprou para mim, porque a forma e os saltos não eram bem
modernos.[13]
Na noite em que meu pai foi atacado de
apoplexia mortal, aconteceu alguma coisa que eu, por receio de uma
interpretação desagradável, nunca consegui contar-lhe: foi quando fui
assaltada, pela primeira vez, por meu espírito atormentador de agora.
Dormia no quarto de minha mãe. Seus
suspiros regulares indicam um sono profundo. Quando de repente escuto
chamar-me pelo nome. Uma voz desconhecida me dizia: “Que será se papai
morrer?”
Eu não gostava mais de meu pai, desde
quando maltratava minha mãe, como afinal, eu não gostava, desde aquele
tempo, absolutamente de ninguém, mas, era afeiçoada somente a algumas
pessoas que eram boas para mim. Amor sem esperança de recompensa terrena
existe somente nas almas em estado de graça. E eu não o possuía. Assim,
respondi à misteriosa pergunta, sem ligar de onde viesse: “mas, não
morre nunca!”
Após uma breve pausa, novamente a mesma pergunta claramente percebida. “Mas, não morre nunca” me escapou bruscamente da boca.
Pela terceira vez fui interrogada: “Que será se teu pai morrer?”
Apresentou-se-me à mente, como papai
costumava chegar em casa quase sempre embriagado, como gritava, como
maltratava mamãe e como nos havia reduzido a uma condição humilhante
diante do povo. Então gritei aborrecida: “E, para ele é bom”.
Então, tudo sossegou. Na manhã seguinte,
quando mamãe quis arrumar o quarto do papai, encontrou a porta fechada à
chave. Pelo meio-dia resolvemos arrombar a porta. Meu pai, meio
vestido, jazia morto sobre a cama. Ao ir buscar a bebida na adega, devia
ter-lhe acontecido algum acidente. E, já se encontrava, havia muito
tempo, adoentado.
(Teria Deus ligado à vontade de uma
filha, para com a qual, aquele homem havia sido, de certo modo, bom, a
ocasião para converter-se?)[14]
Marta K e você me induziram a entrar na
“Associação das Moças”. Realmente, nunca ocultei que achava bastante
sintonizadas com o costume paroquial, as instruções das duas
presidentes, as Senhoras F. e G.
Os jogos eram divertidos, como você
sabe, tive logo um lugar na diretoria. Gostava disso. Também os passeios
me agradavam. Deixei-me até induzir, algumas vezes, a ir confessar e
comungar. Para dizer a verdade, não tinha nada para confessar.
Pensamentos e palavras, para mim, não tinham nenhuma importância. Para
praticar ações grosseiras, eu não estava ainda bastante corrompida.
Uma vez você admoestou: “Ana, se você não reza mais, você se perderá”.
Eu, de fato, rezava pouco e, além disso,
de muito má vontade. Agora vejo que, infelizmente, você tinha razão.
Todos aqueles que se queimam no inferno é porque não rezam, ou não
rezaram bastante.
A oração é o primeiro passo para Deus. E
continua sendo o passo decisivo. Especialmente a oração àquela que foi a
Mãe de Jesus Cristo, cujo nome nós não pronunciamos nunca[15]. A devoção a Ela, arranca ao demônio inúmeras almas que o pecado poria, infalivelmente, nas mãos dele.
Continuo a narração consumindo-me da raiva, e só porque devo.
Rezar é a coisa mais fácil que o homem pode fazer na terra[16].
E, justamente, a esta coisa facílima é que Deus ligou a salvação de
cada um. A quem reza com perseverança ele, pouco a pouco, dá tanta luz e
fortifica-o, de maneira tal, que no fim, mesmo o pecador mais
empedernido, pode definitivamente se elevar. Ainda que estivesse
mergulhado na lama até o pescoço.
Nos últimos anos de minha vida não rezei mais como devia, e assim fiquei privada das graças sem as quais ninguém pode se salvar.
Aqui não recebemos mais nenhuma graça.
Ao contrário, mesmo que as recebêssemos, nós, cinicamente, as
rejeitaríamos. Todas as oscilações da existência terrena terminaram
nesta outra vida. Entre vocês, aí na terra, o homem pode subir do estado
de pecado ao estado de graça. Da graça cair no pecado. Muitas vezes por
fraqueza ou talvez por malícia. Com a morte, este subir e descer acaba
porque tem sua raiz na imperfeição do homem livre. Agora, já atingimos o
estado final. Já com o crescer dos anos as transformações se tornam
mais raras.
No entanto, até à morte, se pode sempre
converter para Deus ou voltar-lhe as costas. E, no entanto, o homem,
como que arrastado pela corrente, antes do desenlace, com os últimos e
fracos restos da vontade, se comporta como estava acostumado em vida. O
hábito, bom ou mau, torna-se segunda natureza. Esta o arrasta consigo.[17]
Assim aconteceu também comigo. Há anos eu vivia afastada de Deus. Por isso na última chamada da graça, me decidi contra Deus.
O fato de que eu pecasse frequentemente, para mim não foi fatal, mas, fatal foi que eu não quis mais ressurgir.
Você várias vezes me admoestou para
ouvir pregações e ler livros de piedade. “Não tenho tempo” era a minha
resposta ordinária. Não faltava mais nada para aumentar a minha
incerteza interior!
Afinal, devo constatar isto: desde o
momento em que a coisa já estava assim adiantada, pouco antes de minha
saída da “Associação das Moças”, me teria sido imensamente duro tomar
uma outra estrada. Eu me sentia insegura e infeliz. Mas, diante da
conversão surgia uma muralha. Você não o deve ter percebido e
considerava coisa tão simples que um dia me disse: “Mas, faça uma boa
confissão, Ana, e tudo retoma seu lugar”. Eu sabia que teria sido mesmo
assim. Mas, o mundo, o demônio e a carne me prendiam já muito fortemente
em suas redes.
Ao influxo do demônio eu nunca dei
crédito e agora atesto que ele influi fortemente nas pessoas que se
encontram nas condições em que me encontrava então. Somente muitas
orações de outros e mesmo minhas, unidas com sacrifícios e sofrimentos,
teriam conseguido arrancar-me dele. E, isto, só aos poucos. Se existem
poucos obsessos externamente, há uma infinidade de obsessos
internamente. O demônio não pode roubar a vontade livre daqueles que se
entregam ao seu influxo. Mas, como castigo de sua, por assim dizer,
apostasia metódica de Deus, este, permite que o “maligno” se aninhe
neles.
Eu odeio também o demônio. No entanto,
ele me agrada porque procura arruinar vocês; ele e os seus satélites, ou
espíritos caídos com ele, no princípio do tempo. Eles existem aos
milhões. Vagabundeiam pela terra como um enxame de moscas e vocês nem o
percebem.[18]
Não compete a nós condenados a missão de ir tentar os homens. Isto é tarefa dos espíritos decaídos[19].
Verdadeiramente, isto aumenta mais ainda o seu tormento cada vez que
eles arrastam cá para o inferno uma alma humana. Mas, o que é que não
faz o ódio?[20]
Embora eu andasse por caminhos afastados
de Deus, Deus sempre me seguia. Preparava o caminho para a graça com
atos de caridade natural que eu fazia muitas vezes por inclinação do meu
temperamento. Algumas vezes, Deus me atraía para alguma igreja. Então,
eu sentia, como que, uma saudade.
Quando cuidava de mamãe adoentada, não
obstante o trabalho do escritório durante o dia e de certo modo me
sacrificava de verdade, estes acenos de Deus agiam poderosamente. Uma
vez, na capela do Hospital, onde você me havia levado, durante o
intervalo do meio-dia, senti dentro de mim alguma coisa que teria sido
necessário apenas um passo para a minha conversão: e eu chorei!
Mas, ao depois, a alegria do mundo passava de novo, como uma torrente, sobre a graça. A semente se sufocava entre os espinhos.[21]
Com a declaração de que a religião é
questão de sentimento, como sempre se dizia no escritório, atirei ao
cesto também esta moção de graça, como todas as outras.
Certa vez, você me chamou a atenção
porque em vez de uma genuflexão bem feita, fiz apenas uma desajeitada
inclinação, dobrando o joelho. Você pensou que fosse preguiça. Não
parecia sequer que você suspeitasse que eu desde aquele tempo, já não
acreditava mais na presença de Cristo na Eucaristia.
Agora acredito, mas só naturalmente,
como se acredita em um temporal, do qual decorrem os efeitos. Até então,
eu estava instalada, propriamente, em uma religião a meu modo.
Sustentava a opinião que entre nós, no escritório, era comum, que a alma
após a morte reaparece em um outro ser. E deste modo, continuaria a
peregrinar sem fim. Com isto, o angustiante problema do além era posto
em seu lugar e ao mesmo tempo se tornava inofensivo para mim.
Porque você não me lembrou a parábola do
rico epulão e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, manda,
imediatamente, um para o inferno e outro para o céu?…[22]
Afinal, o que é que você teria conseguido? Nada, além do que conseguiram seus outros sermões de carolice!
Pouco a pouco, criei para mim mesma um
deus. Bastante afastado de mim, para não ter que manter nenhuma relação
com ele. Bastante vago para, conforme a necessidade, sem mudar minha
religião, deixar-se assemelhar a um deus panteístico do mundo, ou então,
para deixar-se poetizar como um deus solitário. Este deus não tinha
nenhum céu para presentear-me e nenhum inferno para castigar-me. Eu o
deixava em paz, e ele também a mim. Nisto consistia minha adoração a
ele.
“A gente acredita, de boa vontade, no
que nos agrada”. No correr dos anos, me conservei bastante convicta
desta religião. Deste modo, podia-se viver. Somente uma coisa me teria
quebrado a cabeça: uma longa e profunda dor. E esta não veio!
Compreendi agora o que significa: “Deus castiga aqueles que ele ama?”[23]
Era um domingo de julho, quando a
Associação das Moças, organizou uma excursão a… O passeio me teria sido
bem agradável. Mas, aqueles sermões insípidos… passar por beata…
Uma outra imagem bem diferente daquela
de Nossa Senhora de… estava agora no altar do meu coração. Max N. um
comerciário vizinho. Pouco tempo antes, havíamos algumas vezes transado
juntos. Justamente para aquele domingo, ele me havia convidado para um
passeio. Aquela com que ele costumava passear estava doente no hospital.
Ele havia compreendido que eu estava de
olho nele. Casar-nos, eu ainda não pensava naquele tempo. Era realmente
possível, mas, ele se comportava demasiadamente delicado com todas as
moças. E, eu até aquela época, desejava um homem que fosse
exclusivamente meu. Desejava, não só ser mulher, mas, mulher única. Um
certo traquejo natural, de fato, sempre tive.
(É verdade! Anita, com toda a sua
indiferença religiosa, tinha algo de nobre no seu procedimento. Eu me
espanto ao pensar que também pessoas bem educadas podem ir para o
inferno, quando são tão mal-educadas a ponto de fugir de Deus).[24]
Naquele passeio Max se derreteu em gentilezas. E não houve lugar para conversações padrescas, como entre vocês.
No dia seguinte, no escritório, você me
fez reclamações por não ter ido com vocês a…, e eu lhe descrevi meu
divertimento naquele domingo. Sua primeira pergunta foi: “Você assistiu à
Missa?” “— Bobinha! Como podia ir à Missa se a saída já estava marcada
para as seis!” Lembra-se ainda como eu, nervosa, acrescentei: “Deus não
pensa nestas minúcias, como os padrecos de vocês!”
Agora devo confessar: Deus, não obstante sua infinita bondade, pesa as coisas com maior precisão do que todos eles (os padres).
Depois daquele primeiro passeio com Max,
fui ainda uma vez à Associação: pelo Natal para celebrar a festa. Havia
alguma coisa que me convidava a voltar. Mas, internamente, me sentia
já, afastada de vocês.
Cinema, baile, passeios, se sucediam sem
trégua. Max e eu brigamos sim, algumas vezes, mas, eu soube sempre
acorrentá-lo de novo, em mim.
Insuportável tornou-se-me a outra
pretendente que, saindo do hospital, procedeu como uma louca. Realmente
para sorte minha. Pois, minha nobre calma impressionou tanto o Max que
ele acabou decidindo que eu fosse a preferida. Eu soube enchê-la de ódio
falando friamente: por fora, positiva, por dentro vomitando veneno.
Tais sentimentos e tal procedimento
preparam-me, excelentemente, para o inferno. São diabólicos no sentido
mais estrito da palavra.
Mas, por que lhe conto isto? Para relatar como me afastei definitivamente, de Deus.
Não que eu e Max, tenhamos, muitas
vezes, chegado aos extremos da familiaridade. Eu compreendia que me
teria rebaixado aos seus olhos, se me tivesse entregue, completamente,
antes do tempo. Por isso, soube controlar-me. Mas, em si, toda vez que o
julgava útil, estava sempre disposta a tudo. Devia conquistar Max. Para
isso, nada era caro demais. Além disso, pouco a pouco nos amávamos,
possuindo nós dois muitas e preciosas qualidades que nos faziam estimar
um ao outro. Eu era hábil, inteligente, de agradável companhia. Assim
segurei Max, fortemente na mão e consegui, ao menos nos últimos meses
antes do casamento, ser a única a possuí-lo.
Nisto consistiu minha apostasia de Deus:
elevar uma criatura à categoria de ídolo para mim. Em nenhuma outra
coisa pode acontecer isto, de modo que abranja tudo, como no amor de uma
pessoa de outro sexo, quando este amor fica encalhado nas satisfações
terrenas.
É isto que forma o seu atrativo, o seu
estímulo e o seu veneno. A “adoração” que eu tributava a mim mesma, na
pessoa de Max, tornou-se para mim, religião vivida. Era o tempo em que,
no escritório, eu me insurgia, venenosa, contra os igrejeiros, os
padres, as indulgências, contra o resmungo dos rosários e outras
bobagens.
Você procurou, mais ou menos
argutamente, tomar a defesa de tais coisas. Sem desconfiar,
aparentemente, que no mais íntimo do meu ser, não se tratava, na
verdade, destas coisas.
Eu procurava, mais que tudo, um apoio
para minha consciência — e tinha, então, necessidade de um tal sustento —
para justificar, também com a razão a minha apostasia.
Afinal de contas, eu me revoltava contra
Deus. Você não me compreendeu, considerando-me, ainda católica. Queria
mesmo ser chamada assim; pagava até as taxas da igreja. Uma certa
“contra-garantia” pensava, não devia prejudicar-me.
As suas respostas, pode ser que algumas
vezes, tenham acertado o alvo. Para mim, nada adiantavam, porque você
não devia ter razão. Por causa destas relações fictícias entre nós duas,
é que foi mínimo o pesar de nossa separação, por ocasião de meu
casamento. Antes do casamento confessei-me e comunguei ainda uma vez.
Era obrigatório. Eu e meu marido, sobre este ponto, pensávamos do mesmo
modo.
Por que não deveríamos satisfazer esta formalidade? Cumpramo-la também nós, como qualquer outra formalidade.
Você qualifica de indigna uma tal
comunhão. Pois bem, depois daquela comunhão “indigna”, eu tive mais
calma na consciência. Mas, também, foi a última.
A nossa vida conjugal transcorria, em
geral, numa invejável harmonia. Em todos os pontos de vista tínhamos a
mesma opinião. Até nisto: não queríamos arcar com o peso dos filhos.
Realmente, meu marido, de boa vontade, teria tido um. Mais de um, não, é
claro. No fim, eu soube desviá-lo também deste desejo.
Vestidos, móveis de luxo, salões de chá, passeios e viagens de carro e semelhantes distrações, me interessavam mais[25]. Foi um ano de prazer na terra aquele que transcorreu entre meu casamento e minha morte repentina.
Todo domingo, saíamos de carro ou íamos
visitar os parentes de meu marido, (dos de minha mãe, agora me
envergonhava). Estes flutuavam na superfície da existência, nem mais,
nem menos que nós. Intimamente, é claro, nunca me sentia feliz, embora,
externamente risse.
Havia, sempre, dentro de mim, alguma
coisa de indeterminado que me roía. Teria querido que após a morte, a
qual naturalmente, devia estar ainda muito longe, tudo acabasse.
Mas, é mesmo, como um dia, quando
pequena, ouvi dizer na prática: que Deus premia toda obra boa que a
gente faz e quando não a puder recompensar na outra vida, fá-lo na
terra.
Inesperadamente, recebi uma herança da
tia Lotte. Meu marido felizmente conseguiu elevar seus vencimentos a uma
notável quantia. Assim, pude organizar nova residência de maneira
atraente.
A religião não refletia mais, senão de
longe, a sua luz pálida, fraca e duvidosa. Os bares da cidade, os hotéis
em que passávamos durante as viagens, não nos levavam, de certo, para
Deus. Todos os que frequentavam aqueles lugares, viviam como nós, “de
fora para dentro” e não “de dentro para fora”. Se em viagens de férias
visitávamos alguma igreja, procurávamos deleitar-nos com o conteúdo
artístico das obras. O clima religioso que inspiravam, especialmente,
aquelas da Idade Média, eu sabia neutralizar, criticando alguma
circunstância secundária: um frade acanhado, ou mal vestido que nos
guiava — o escândalo dos monges que queriam passar por santos e vendiam
licores — o eterno repique de sinos para as funções sagradas só para
ajuntar dinheiro…
Assim, soube, continuamente, espantar de mim a Graça, toda vez que ela batia à minha porta.
Deixava livre desabafo ao meu mau humor
de modo particular sobre certas representações medievais do inferno, nos
cemitérios ou em outros lugares, em que o demônio assa as almas em
brasas vivas e incandescentes, enquanto seus companheiros, de longas
caudas, arrastam pra cá novas vítimas. Clara! O inferno pode-se errar ao
descrevê-lo, mas não se exagera nunca!
O fogo do inferno, eu sempre o ataquei
decisivamente. Você sabe, como durante uma discussão a respeito, lhe
coloquei um fósforo diante do nariz e lhe perguntei com sarcasmo: “tem
este cheiro?” Você apagou, depressa a chama. Aqui ninguém a apaga. E, eu
lhe digo: o fogo de que se fala na Bíblia não significa tormento de
consciência, não. Fogo é fogo! E deve-se entender literalmente aquilo
que disse Ele: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!”
Literalmente![26]
“Como pode o espírito ser atingido pelo fogo material?” Perguntará você.
Como pode sua alma sofrer, na terra,
quando você coloca seu dedo no fogo? A alma, de fato, não queima. No
entanto, que tormento experimenta o indivíduo todo! De modo análogo, nós
não estamos espiritualmente ligados ao fogo, segundo a nossa natureza e
segundo as nossas faculdades. Nossa alma está privada do seu natural
“bater de asas”, nós não podemos pensar aquilo que queremos.[27]
Não olhe com espanto para estas linhas:
este estado, que, para vocês, não significa nada, me queima sem me
consumir. Nosso maior tormento consiste em saber que nós jamais veremos a
Deus.
Como pode isto atormentar tanto, uma vez
que na terra a gente fica tão indiferente? Enquanto o punhal está sobre
a mesa nos deixa indiferente. Vê-se que está bem afiado, mas, não o
experimentamos. Enfia este punhal na sua carne e você começará a gritar
de dor. Nós agora sentimos a perda Deus, antes, somente, pensávamos
nela.[28]
Nem todas as almas sofrem em igual
medida. Com quanto maior maldade e quanto mais sistematicamente uma
pessoa pecou, tanto mais grave pesa sobre ela a perda de Deus e tanto
mais a sufoca a criatura de que ela abusou.
Os católicos condenados sofrem muito
mais do que os de outras religiões, porque estes, geralmente, receberam e
desprezaram mais graças e mais luz.
Quem teve mais conhecimento, sofre mais
duramente do que quem conheceu menos. Quem pecou por malícia sofre mais
agudamente do que aquele que cai por fraqueza. Mas, ninguém sofre mais
do que mereceu. Oh! Se isso não fosse verdade, de modo que eu tivesse um
motivo para odiar!
Você me disse um dia que ninguém vai para o inferno sem saber e que isto teria sido revelado, por uma santa.
Eu me ri disso. Mas, depois, me escondi
atrás desta declaração: “qual nada, em caso de necessidade, haverá
bastante tempo para voltar atrás” me dizia secretamente.
E é verdade. Realmente, antes de meu
inesperado fim, eu não conhecia o inferno como ele é. Nenhum mortal o
conhece. Mas, eu tinha plena consciência: “se morres, vais, no mundo do
além, rápida como uma flecha, contra Deus. Sofrerás as consequências”.
Eu não dei um passo sequer para trás,
como já disse, porque estava dominada pelo hábito. Impelida por aquela
conformidade pela qual os homens quanto mais envelhecem tanto mais agem
em uma mesma direção. Minha morte foi assim.
Há uma semana — falo conforme a conta de
vocês, porque, com relação à dor, poderia dizer que já faz dez anos,
que queimo no inferno ― há uma semana, portanto meu marido e eu fizemos
um passeio de domingo, o último para mim.
O dia surgiu radiante. Sentia-me bem
como nunca. Invadiu-me um sinistro sentimento de felicidade que serpejou
em mim durante todo o dia. Quando, de repente, na volta, meu marido foi
ofuscado por um carro que vinha em alta velocidade.
Perdeu o controle.
“Jesus” me saiu dos lábios, como um arrepio. Não como oração, só como grito.[29]
Uma dor lancinante invadiu-me toda — comparada com a de agora, uma coisa à toa. Logo, perdi os sentidos.
Estranho! Naquela manhã surgiu em mim de
modo inexplicável este pensamento: “poderias ainda uma vez ir à missa”.
Insistente como um pedido.
Claro e resoluto o meu “não” partiu o
fio dos pensamentos: “com estas coisas é preciso acabar de uma vez. Arco
com todas as consequências”. Agora as sofro.
Isto que aconteceu após minha morte,
você, já o saberá. A sorte de meu marido, de minha mãe, tudo o que
aconteceu a meu corpo, o desenrolar de meus funerais, são conhecidos por
mim em todos os seus pormenores, mediante conhecimentos naturais, que
nós temos aqui.
O que afinal acontece na terra, nós só o
sabemos confusamente. Mas aquilo que de alguma maneira nos atinge de
perto, nós o conhecemos. Assim, vejo também onde você passa seu tempo.[30]
Eu mesma me acordei, inesperadamente, da
escuridão, no instante de minha morte. Vi-me como que inundada por uma
luz deslumbrante. Foi no lugar mesmo onde jazia meu corpo. Aconteceu
como em um teatro, quando na sala, de repente, se apagam as luzes, o
pano de boca se rasga rumorosamente, e se abre uma cena inesperada,
horrivelmente iluminada. A cena de minha vida. Como em um espelho minha
alma se mostrou a mim mesma. As graças desprezadas da juventude até ao
último “não” diante de Deus. Eu me senti como um assassino diante do
qual, durante o processo judiciário, é levada sua vítima desfalecida.
— Arrepender-me? Nunca![31]
— Envergonhar-me? Tão pouco!
Eu não podia, porém nem sequer
resistir-me diante dos olhos de Deus por mim rejeitado. Não sobrava
senão um recurso: a fuga. Como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim,
minha alma foi impelida para longe daquela vista de horror. Isto foi o
juízo particular. O juiz invisível disse: “afasta-te de mim!” Então
minha alma, como uma sombra amarela de enxofre precipitou no lugar do
eterno tormento.[32]
Assim, terminava a carta de Anita,
procedente do inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, de tão
deformadas que estavam, A própria carta se incinerou nas minhas mãos.