I. Necessidade da intercessão de Maria para nossa salvação
1. É muito salutar a intercessão dos santos*
É a invocação e veneração dos santos, particularmente a de Maria,
Rainha dos santos, uma prática não só lícita senão útil e santa. Pois procuramos
por meio dela obter a graça divina. Esta verdade é de fé, estabelecida pelos
Concílios contra os hereges que a condenam como injúria feita a Jesus Cristo,
nosso único medianeiro. Mas, se, depois da morte, um Jeremias reza por
Jerusalém; se os anciãos do Apocalipse apresentam a Deus as orações dos santos;
se um S. Paulo promete a seus discípulos lembrar-se deles depois da morte; se S.
Estêvão intercede por seus perseguidores e um S. Paulo, por seus companheiros;
se, em suma, podem os santos rogar por nós, por que não poderíamos nós, por
nossa vez, rogar-lhes para que intercedam por nós? Às orações de seus discípulos
recomenda-se S. Paulo: Irmãos, rezai por nós (1Ts 5,25). S. Tiago exorta-nos
“que roguemos uns pelos outros” (5,16). Podemos, por conseguinte, fazer o
mesmo.
Que seja Jesus Cristo único Mediador de justiça a reconciliar-nos com
Deus, pelos seus merecimentos, quem o nega? Não obstante isso, compraz-se
Deus em conceder-nos suas graças pela intercessão dos santos e especialmente
de Maria, sua Mãe, a quem tanto deseja Jesus ver amada e honrada.
Seria impiedade negar semelhante verdade. Quem ignora que a honra
prestada às mães redunda em glória para os filhos? Os pais são as glórias dos
filhos, lemos nos Provérbios (17,6). Quem muito enaltece a mãe, não precisa ter
receio de obscurecer a glória do filho. Pois quanto mais se honra a Mãe, tanto
mais se louva o Filho, diz S. Bernardo. E observa S. Ildefonso: É tributada ao Filho
e ao Rei toda a honra que se presta à Mãe e à Rainha. Ao mesmo tempo está fora
de dúvida que pelos merecimentos de Jesus Cristo foi concedida a Maria a
grande autoridade de ser medianeira da nossa salvação, não de justiça, mas de
graça e de intercessão, como bem lhe chamou Conrado de Saxônia com o título
de “fidelíssima medianeira de nossa salvação”. E S. Lourenço Justiniano
pergunta: Como não ser toda cheia de graça, aquela que se tornou a escada do Portanto, bem adverte Suárez: Quando suplicamos à Santíssima
Virgem nos obtenha as graças, não é que desconfiemos da misericórdia divina,
mas é muito antes porque desconfiamos da nossa própria indignidade.
Recomendamo-nos, por isso, a Maria, para que supra sua dignidade a nossa
miséria.**
2. Em que sentido nos é necessária a intercessão de Maria*
Que o recorrer, pois, à intercessão de Maria Santíssima seja coisa
utilíssima e santa, só podem duvidar os que são faltos de fé. O que, porém, temos
em vista é que esta intercessão é também necessária à nossa salvação.
Necessária, sim, não absoluta, mas moralmente falando, como deve ser. A
origem desta necessidade está na própria vontade de Deus, o qual pelas mãos de
Maria quer que passem todas as graças que nos dispensa. Tal é a doutrina de S.
Bernardino, doutrina atualmente comum a todos os teólogos e doutores,
conforme o assevera o autor do Reino de Maria.
Seguem esta doutrina Vega, Mendoza, Pacciuchelli, Ségneri, Poiré,
Crasset e inúmeros outros autores. Até Alexandre Natal, aliás, tão reservado em
suas proposições, diz ser vontade de Deus que pela intercessão de Maria
esperemos todas as graças. Em seu apoio cita a célebre passagem de S.
Bernardo: Esta é a vontade de Deus, que recebamos tudo por meio de Maria. Da
mesma opinião é também Contenson, como se vê do seu comentário às palavras
de Jesus, dirigidas a S. João, do alto da cruz. Assim faz ele dizer ao Salvador:
Ninguém terá parte no meu sangue, senão pela intercessão de Maria. Minhas
chagas são fontes de graças, mas só por meio de Maria correrão até aos homens.
Tanto por mim serás amado, João, meu discípulo, quanto amares minha Mãe.**
3. Objeções contra a necessidade da intercessão de Maria*
Esta proposição sobre a universal mediação de Maria, quanto aos bens que de Deus recebemos, não agrada muito a certo autor moderno.
10 Embora fale, aliás com muita piedade e erudição, da verdadeira e da falsa devoção à
Mãe de Deus, mostra-se muito avaro em lhe conceder esta glória. Em dar-lha
não tiveram, entretanto, escrúpulo um S. Germano, um Santo Anselmo, um S.
João Damasceno, um S. Boaventura, um S. Bernardino de Sena, o venerável
abade de Celes e tantos outros doutores. Nenhum deles encontrou dificuldade na
aceitação da doutrina de ser a mediação de Maria, pelos motivos já expostos, não
só útil como também necessária à nossa salvação. Diz o citado autor que uma tal proposição, isto é, de não conceder o
Senhor graça alguma senão por meio de Maria, é hipérbole, é uma exageração
que escapou ao fervor de alguns santos. Falando-se com exatidão, quer a sentença apenas significar que de Maria recebemos Jesus Cristo, por cujos méritos obtemos todas as graças. Do contrário, acrescenta ele, seria um erro acreditar que Deus não possa distribuir-nos suas graças sem a intercessão de Maria. Pois diz o Apóstolo que “reconhecemos um único Deus e um único
medianeiro entre Deus e os homens, Jesus Cristo”.**
4. Refutação e demonstração*
Seja-me permitido recordar, entretanto, ao autor uma distinção que ele
mesmo faz. No seu livro acentua também a diferença entre a mediação de
justiça, em vista dos méritos, e a mediação de graça, por via de intercessão. E do
mesmo modo uma coisa é dizer que Deus não possa, e outra que Deus não queira
conceder as suas graças sem a intercessão de Maria. Nós confessamos que Deus
é a fonte de todos os bens e o Senhor absoluto de todas as graças. Confessamos
também que Maria não é mais que uma pura criatura e que, quanto obtém, tudo
recebe de Deus gratuitamente. Mais que todas as outras, esta sublime criatura na
terra também o honrou e amou, sendo por ele escolhida para Mãe de seu Filho, o
Salvador do mundo. Querendo exaltá-la de um modo extraordinário, determinou
por isso o Senhor que por suas mãos hajam de passar e sejam concedidas todas
as mercês dispensadas às almas remidas. Não é muito razoável e muito
conveniente tal suposição? Quem poderá dizer o contrário? Não há dúvida,
confessamos que Jesus Cristo é o único medianeiro de justiça, porque por seus
méritos nos obtém a graça e a salvação. Mas ajuntamos que Maria é medianeira
de graças, e como tal pede por nós em nome de Jesus Cristo e tudo nos alcança
pelos méritos dele. Assim, pois, à intercessão de Maria devemos, de fato, todas as
graças que solicitamos. Nada há nisso de contrário aos sagrados dogmas. Ao
invés, o que há é plena conformidade com os sentimentos da Igreja. Nas orações
por ela aprovadas, ensina-nos a recorrer sempre à Mãe de Deus e a invocá-la
como “salvação dos doentes, refúgio dos pecadores, auxílio dos cristãos, vida e
esperança nossa”. Nas festas da Santíssima Virgem aplica-lhe no ofício palavras
dos Livros da Sabedoria e assim nos dá a entender que nela acharemos toda
esperança. “Em mim há toda a esperança da vida e da virtude” (Eclo 24,25). Em
suma acharemos em Maria a vida e a nossa salvação. “Quem me acha, achará a
vida e haurirá do Senhor a salvação” (Pr 8,35). Lemos numa outra passagem:
“Os que operam por mim não pecarão; aqueles que me esclarecem terão a vida
eterna” (Eclo 24,30). Tudo está nos mostrando quão necessária nos é a
intercessão de Maria.
Nessa convicção confirmaram-me muitos teólogos e Santos Padres.
Injustiça fora afirmar que eles, como diz o sobredito autor, exaltando Maria,
tenham caído em hipérboles e exagerações desmedidas. Tanto uma como outra
saem dos limites do verdadeiro. Não podemos, pois, atribuí-las aos santos que falaram inspirados por Deus, que é espírito de verdade.
Permitam-me fazer aqui uma breve digressão, para externar o que
sinto. Quando uma sentença de qualquer modo honrosa para a Santíssima Virgem
tem algum fundamento e não repugna à verdade, deixar de adotá-la e combatê-
la, porque a sentença contrária pode também ser verdadeira, é indício de pouca
devoção à Mãe de Deus. Não quero estar, nem desejo ver meus leitores entre
esses poucos devotos de Maria. Desejo pelo contrário vê-los entre os que creem
plena e firmemente tudo quanto sem erro podem crer das grandezas de Maria,
segundo as palavras do abade Roberto, que conta semelhante fé entre um dos
obséquios mais agradáveis a Maria. Quando não houvesse outro a nos livrar do
temor de ser excessivo nos louvores de Maria, bastava o Pseudo-Agostinho para
fazê-lo. Conforme suas palavras, tudo quanto pudermos dizer em louvor de Maria
é pouco em relação ao que merece por sua dignidade de Mãe de Deus.
Confirmai isto a Santa Igreja, a qual faz ler na Missa da Santa Virgem as
seguintes palavras: Bem-aventurada és tu, Santa Virgem Maria, e mui digna de
todo louvor.
Voltemos, porém, ao nosso assunto e vejamos o que dizem os Santos
Padres sobre a sentença proposta. Segundo S. Bernardo, Deus encheu Maria com
todas as graças para que por seu intermédio recebam os homens todos os bens
que lhes são concedidos. Faz aqui o Santo uma profunda reflexão, acrescentando:
Antes do nascimento da Santíssima Virgem, não existia para todos essa torrente
de graças, porque não havia ainda esse desejado aqueduto: Maria foi dada ao
mundo – continua ele – a fim de que por seu intermédio, como por um canal, até
nós corresse sem cessar a torrente das graças divinas.
Que lhe arrebentassem os aquedutos, foi ordem dada por Holofernes
para tomar a cidade de Betúlia (Jt 7,6). Assim o demônio também envida todos
os esforços para acabar com a devoção à Mãe de Deus nas almas. Pois, cortado
esse canal de graças, mui fácil se lhe torna a conquista. Consideremos, portanto,
continua S. Bernardo, com que afeto e devoção quer o Senhor que honremos esta
nossa Rainha. Consideremos o quanto deseja que a ela sempre recorramos e em
sua proteção confiemos. Pois em suas mãos depositou a plenitude de todos os
bens, para nos tornar cientes de que toda esperança, toda graça, toda salvação, a
nós chegam pelas mãos dela. A mesma coisa declara S. Antônio. Todas as
misericórdias dispensadas aos homens lhes têm vindo por meio de Maria.
É por isso Maria comparada à lua. Colocada entre o sol e a terra, a lua
dá a esta o que recebe daquele, diz S. Boaventura; do mesmo modo recebe Maria
os celestes influxos da graça para no-los transmitir aqui na terra.
Pelo mesmo motivo chama-lhe a Igreja “porta do céu”. Como todo
indulto do rei passa pela porta de seu palácio, observa S. Bernardo, assim
também graça nenhuma desce do céu à terra sem passar pelas mãos de Maria.
Ajunta S. Boaventura que Maria é chamada porta do céu porque ninguém pode entrar no céu senão pela porta, que é Maria.
Nesse sentimento confirma-nos S. Jerônimo (isto é, um antigo autor
com esse nome)
11 no sermão da Assunção, que vem inserido nas suas obras.
Nele lemos que em Jesus Cristo reside a plenitude da graça, como na cabeça, de
onde se transfunde para nós, que somos seus membros, o vivificador espírito dos
auxílios divinos necessários à nossa salvação. Em Maria reside a mesma
plenitude como no pescoço, pelo qual passa esse espírito para comunicar-se ao
resto do corpo. Com cores mais vivas dá S. Bernardino o mesmo pensamento:
Por meio de Maria transmitem-se aos fiéis, que são o corpo místico de Jesus
Cristo, todas as graças da vida espiritual emanadas de Jesus Cristo, que lhes é
cabeça. E com as seguintes palavras procura confirmar isto: Tendo-se Deus
dignado habitar no ventre desta Virgem Santíssima, adquiriu ela uma certa
jurisdição sobre todas as graças: porque, saindo Jesus Cristo do seu ventre
sacrossanto, dele saíram juntamente como de um oceano celeste todos os rios
das divinas dádivas. Escrevendo com maior clareza ainda, diz o Santo: A partir do
momento que esta Virgem Mãe concebeu em seu ventre o Divino Verbo, adquiriu, por assim dizer, um direito especial sobre os dons que nos provêm do Espírito Santo, de tal modo que criatura alguma recebe graças de Deus, senão
por mãos de Maria. À Encarnação do Verbo e a sua Mãe Santíssima refere-se a
passagem de Jeremias (31,22): “Uma mulher circundará a um homem”. Certo autor explica exatamente no mesmo sentido estas palavras: Nenhuma linha pode sair do centro de um círculo sem passar primeiro pela circunferência. Assim de Jesus, que é o centro, graça alguma chega até nós sem antes passar por Maria, que o encerra, desde que o recebeu em seu puríssimo seio. Por esse motivo,
segundo S. Bernardino, todos os dons, todas as virtudes e as graças também todas,
são dispensadas pelas mãos de Maria, a quem, quando e como ela quer. Assevera
igualmente Ricardo de S. Lourenço ser vontade de Deus que todo bem que faz às
suas criaturas lhes venha pelas mãos de Maria. O venerável abade de Celes
exorta por isso todos à invocação dessa tesoureira da graça, como denomina,
porque só por intermédio dela os homens hão de receber todo o bem que podem
esperar. De onde claramente se vê que os citados santos e autores, afirmando nos
virem todas as graças por meio de Maria, não o quiseram dizer só no sentido
como o entende o sobredito autor. Para ele, tudo apenas significa que de Maria
temos recebido Jesus, que é a fonte de todos os bens. Não; os santos também
afirmam que Deus, depois de nos ter dado Jesus Cristo, quer que, pelas mãos de
Maria e por sua intercessão, sejam dispensadas todas as graças que em vista dos
méritos de Jesus Cristo se tem concedido, se concedam e se hão de conceder aos
homens até ao fim do mundo.
Daqui conclui o Padre Suárez que é hoje sentimento universal da
Igreja que a intercessão de Maria não somente nos é útil, mas também
necessária. Necessária, como dissemos, não de necessidade absoluta, porque tal nos é somente a mediação de Jesus Cristo. Mas necessária moralmente, porque
entende a Igreja, como pensa S. Bernardo, que Deus tem determinado dispensar-
nos suas graças só pelas mãos de Maria. E primeiro que S. Bernardo, assim o
afirmou S. Ildefonso, dizendo à Santíssima Virgem: ó Maria, o Senhor determinou
entregar nas vossas mãos todos os bens que aos homens quer dar, e por isso vos
confiou riquezas e tesouros de sua graça. Por esta razão exigiu Deus o
consentimento de Maria para se fazer homem. Em primeiro lugar para que
ficássemos todos sumamente obrigados à Virgem, e depois para que
entendêssemos que ao arbítrio dela está entregue a salvação de todos os homens.
Lê-se no profeta Isaías (11,1) que da raiz de Jessé sairia uma haste, isto
é, Maria, e dela, uma flor, isto é, o Verbo Encarnado. Sobre essa passagem tece
Conrado de Saxônia este belo comentário: “Todo aquele que desejar obter a
graça do Espírito Santo, busque a flor em sua haste, isto é, Jesus em Maria. Pois
pela haste encontraremos a flor e pela flor chegaremos a Deus. – Se queres
possuir a flor, procura com orações inclinar a teu favor a vara da flor e alcançá-
la-ás. De outro lado nota-te as palavras do seráfico S. Boaventura, comentando o
trecho “Eles encontraram a criança com Maria, sua Mãe”. Ninguém, diz ele,
achará jamais a Jesus senão com Maria e por meio de Maria. E conclui que em
vão procura Jesus quem não procura achá-lo com sua Mãe. Dizia por isso S. Ildefonso: Quero ser servo do Filho; mas como ninguém pode servir ao Filho sem
servir também a Mãe, esforço-me, por conseguinte, em servir a Maria.
EXEMPLO
Durante uma viagem marítima, entretinha-se um jovem fidalgo de preferência com a leitura de certo livro obsceno. Em palestra com o jovem, pediu-lhe um religioso que fizesse um pequeno obséquio a Nossa Senhora. Com
muito gosto o farei – respondeu o interpelado. – Pois então atire ao mar esse livro
imoral, que está lendo; faça-o por amor à Virgem Maria, disse-lhe o religioso.
O fidalgo apresentou o livro para que o sacerdote o lançasse ao mar,
em seu nome. Este, porém, observou: Não; quero que o senhor mesmo ofereça
esse sacrifício a Nossa Senhora.
O moço prontamente atirou ao mar o livro que tanto havia antes apreciado.
Chegando a Gênova, sua terra natal, Maria o recompensou, fazendo com que tomasse a resolução de consagrar-se a Deus num convento.
ORAÇÃO
Vê, ó minha alma, que bela esperança de salvação e de vida eterna te
dá o Senhor. Em sua grande misericórdia te encheu de confiança no patrocínio de
sua Mãe, embora tenhas, por teus pecados, tantas vezes merecido a reprovação e
o inferno. Agradece, pois, a teu Deus e a Maria, tua protetora, que já se dignou
tomar-te sob seu manto, como já o atestam as inúmeras graças que por seu
intermédio tens recebido. Sim, eu vos agradeço, ó minha Mãe amorosíssima, por
todo o bem que me tendes feito, a mim, pobre infeliz que mereci o inferno. Ó
minha Rainha, de quantos perigos me haveis livrado! Quantas luzes e quantas
misericórdias me tendes obtido de Deus! Que grande bem ou que grande honra de
mim recebestes, para que tanto vos empenheis em fazer-me benefícios?
A tanto vos moveu unicamente a vossa bondade. Ah! nem que eu
sacrificasse por vós o sangue e a vida, nada seria em comparação ao que vos
devo, já que vós me livrastes da morte eterna. Vós me fizestes, como eu espero,
recobrar a graça divina; a vós, em suma, eu devo toda a minha sorte. Ó Senhora
minha amabilíssima, miserável como sou, de outro modo não posso retribuir vossos
benefícios, senão com meus louvores e com meu amor. Eia, não desdenheis
aceitar a oferta de um pobre pecador tocado por vossa bondade.
Se meu coração é indigno de amar-vos por estar manchado e cheio de
apegos terrenos, a vós compete mudá-lo. Mudai-o, pois. Uni-me a meu Deus,
ligai-me de tal modo que nunca mais me possa separar de seu amor. Vós desejais
que eu ame vosso Deus e isto também eu quero de Vós; obtende-me a graça de
amá-lo e amá-lo para sempre e nada mais quero. Amém.
II. Continuação do mesmo assunto
1. Anecessidade da intercessão de Maria provém da sua cooperação na Redenção
Uma sentença de S. Bernardo diz: Cooperaram para nossa ruína um homem e uma mulher. Convinha, pois, que outro homem e outra mulher cooperassem para nossa reparação. E estes foram Jesus e Maria, sua Mãe. Não
há dúvida, diz o Santo, Jesus Cristo, só, foi suficientíssimo para remir-nos. Mais
conveniente era, entretanto, que para nossa reparação servissem ambos os sexos,
assim como haviam cooperado ambos para nossa ruína. Pelo que S. Alberto
chamou a Maria cooperadora da redenção. A própria Virgem revelou a S.
Brígida que assim como Adão e Eva por um pomo venderam o mundo, assim também ela e seu Filho com um coração o resgataram. Do nada pôde Deus criar
o mundo, observa S. Anselmo, mas não quis repará-lo sem a cooperação de
Maria.
De três modos, explica o Padre Suárez, cooperou a divina Mãe para a
nossa salvação. Primeiro, merecendo com merecimento de côngruo a
Encarnação do Verbo. Segundo, rogando muito a Deus por nós, enquanto esteve
no mundo. Terceiro, sacrificando com boa vontade a Deus a vida do Filho para
nossa salvação. Tendo, pois, Maria cooperado para a redenção com tanto amor
pelos homens e tanto zelo pela glória divina, com razão determinou o Senhor que
todos nos salvemos por intermédio de sua intercessão.
Maria é chamada cooperadora de nossa justificação, diz Bernardino de
Busti, porque Deus lhe entregou as graças todas que nos quer dispensar. Por isso,
no dizer de S. Bernardo, todas as gerações, passadas, presentes e futuras, devem
considerar Maria como medianeira e advogada da salvação de todos os séculos.
Garante-nos Jesus Cristo que ninguém pode vir a ele, a não ser que o
Pai o traga. “Ninguém pode vir a mim, se o Pai o não atrair” (Jo 6,44). O mesmo
também, no sentir de Ricardo de S. Lourenço, diz Jesus de sua Mãe. Ninguém
pode vir a mim, se minha Mãe o não atrair com suas preces. Jesus foi o fruto de
Maria, como disse S. Isabel (Lc 1,42). Quem quer o fruto deve também querer a
árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria,
certamente acha também Jesus. Vendo Isabel a Santíssima Virgem que a fora
visitar em sua casa, e não sabendo como lhe agradecer, exclamou cheia de
humildade: E donde a mim esta dita, que venha visitar-me a Mãe do meu
Senhor? (Lc 1,43). Mas como assim pergunta? Não sabia já Isabel que não só
Maria, como também Jesus tinha vindo a sua casa? Por que, pois, se declara
indigna de receber a Mãe, em vez de confessar-se indigna de ver o Filho vir a seu
encontro? Ah! é porque bem entendia a Santa que Maria vem sempre com Jesus
e que, portanto, lhe bastava agradecer à Mãe sem nomear o Filho.
No livro dos Provérbios (31,14), diz-se da mulher prudente: Fez-se
como a nau do negociante, que traz de longe o seu pão. Maria foi essa ditosa nau,
que do céu nos trouxe Jesus Cristo, pão vivo descido do céu para dar-nos a vida
eterna, como ele diz: Eu sou o pão vivo, que desci do céu; se alguém comer deste
pão, viverá eternamente (Jo 6,51). Daí conclui Ricardo de S. Lourenço que no
mar deste mundo todos se perdem, quantos não se tiverem recolhido a esta nau,
isto é, que não forem protegidos de Maria. Sempre, portanto, continua ele, que
estivermos em perigo de nos perdermos pelas tentações ou paixões desta vida,
urge recorrer a Maria, clamando: Depressa, Senhor, ajudai-nos, salvai-nos, se
não quereis ver-nos perdidos. E note-se aqui, de passagem, que o sobredito autor
não se faz escrúpulo de dizer a Maria: Salvai-nos que perecemos! Não imita, por
conseguinte, o autor mencionado no parágrafo anterior, o qual nos proíbe que
peçamos à Virgem salvação, porquanto no seu parecer só de Deus devemos esperá-la. Bem pode um condenado à morte dizer a algum valido do rei que o
salve, pedindo ao príncipe indulto para sua vida. Mas por que então não
poderemos nós dizer à Mãe de Deus que nos salve, impetrando-nos a graça da
vida eterna? S. João Damasceno sem dificuldade dizia à Virgem Santíssima:
Rainha pura e imaculada, salvai-me, livrai-me da condenação eterna! S.
Boaventura saúda-a como “salvação dos que a invocam”. A Santa Igreja aprova
o chamar-lhe “saúde dos enfermos”. E teremos nós escrúpulos de pedir-lhe que
nos salve, quando um escritor afirma que ninguém se salva senão por ela? E já
antes deles, S. Germano afirmou “que ninguém se salva a não ser por meio de
Maria”.
2. Outras provas tiradas da doutrina dos santos e dos doutores*
Vejamos, porém, o que mais escreveram os santos sobre a
necessidade da intercessão da divina Mãe. Na opinião de S. Caetano bem
podemos buscar as graças, mas obtê-las não podemos sem a intercessão de
Maria. Confirma-o S. Antonino com estas belas palavras: Quem pede sem ela,
pretende voar sem asas. Quer dizer o Santo: Quem pede e quer alcançar graças,
sem a intercessão de Maria, pretende voar sem asas. “A terra do Egito está em
tuas mãos” – disse o Faraó a José, e a ele enviava quantos lhe vinham pedir
socorro, respondendo-lhes: Ide a José! Da mesma forma Deus, ao lhe pedirmos
graças, manda-nos a Maria: Ide a Maria! O Senhor decretou, como diz S.
Bernardo, não conceder favor algum sem a mediação de Maria. Por isso,
conforme Ricardo de S. Lourenço, nas mãos dela está nossa salvação, e, com
mais direito que os egípcios a José, podemos nós, cristãos, dizer à Santíssima
Virgem: Nossa salvação está em tuas mãos! O mesmo escreve o abade de Celes:
Em tuas mãos foi colocada nossa salvação. Em termos mais enérgicos acentua-o
o Pseudo-Cassiano, quando diz sem ambages que a salvação depende dos favores
e da proteção de Maria. Quem é protegido por ela se salva; perde-se quem o não
é. Isto leva S. Bernardino de Sena a exclamar: Ó Senhora, porque sois a
dispensadora de todas as graças, e só de vossas mãos nos há de vir a salvação, de
vós também depende nossa salvação.
E por isso razão tinha Ricardo ao escrever: Assim como a pedra cai
logo que é tirada a terra que a sustém, assim uma alma, tirado o socorro de
Maria, cairá primeiramente no pecado e depois no inferno. Deus não nos há de
salvar sem a intercessão de Maria, assevera S. Boaventura; pois, assim como
uma criancinha não pode viver sem a ama, da mesma forma ninguém se pode
salvar sem a proteção de Maria. Tenha, por conseguinte, a tua alma, exorta o
Santo, uma verdadeira sede de devoção a Maria; conserva-a sempre, não a
deixes até que vás receber no céu a maternal bênção de Maria. Ó Virgem
Santíssima, exclamava S. Germano, ninguém pode chegar ao conhecimento de Deus senão por vós, ó Mãe de Deus, ó Virgem Mãe, ó cheia de graça! E de novo:
Se não nos abrísseis o caminho, ninguém escaparia às solicitações da carne e do
pecado.
Como só por meio de Jesus Cristo temos acesso junto ao Pai Eterno,
igualmente, observa S. Bernardo, só por meio de Maria temos acesso junto a
Jesus Cristo. E a tal resolução de Deus, isto é, que sejamos salvos por intermédio
de Maria, dá o Santo este belo motivo: Por meio de Maria receba-nos aquele
Salvador, que por meio dela nos foi dado! Dá-lhe, por isso, o nome de Mãe da
graça e da nossa salvação. Que seria, pois, de nós, indaga S. Germano, que
esperança nos restaria de salvação, se nos abandonásseis, ó Maria, vida dos
cristãos?**
3. Uma segunda objeção*
Mas, replica o citado autor moderno (Muratori), se todas as graças
passam por Maria, a ela hão de recorrer os santos que invocamos, a fim de nos
obterem as graças que lhes pedimos. Mas isto, diz ele, ninguém crê, nem o
sonhou. Enquanto a crê-lo, respondo que nisso não pode haver erro, ou
inconveniente algum. Para honrar a Mãe, constituiu-a Deus Rainha dos santos e
quer que por suas mãos sejam dispensadas todas as graças. Que inconveniente
então pode haver que também os santos a ela se dirijam para obtenção das
graças solicitadas por seus devotos? Enquanto a dizer que isso ninguém o sonhou,
eu acho que tal asseveram explicitamente S. Bernardo, S. Anselmo, o P. Suárez e
outros mais. Em vão pedir-se-iam graças aos santos, se Maria não se
empenhasse em obtê-las, diz S. Bernardo.
Um escritor interpreta no mesmo sentido as palavras do Salmo (44,13):
Todos os ricos do povo suplicarão teu olhar. Os ricos do grande povo de Deus, diz
ele, são os santos. Quando querem obter qualquer graça a algum de seus devotos,
se encomendam a Maria para que ela as obtenha. Com razão, portanto, pedimos
aos santos que sejam nossos intercessores junto a Maria, que lhes é Rainha e
Senhora, diz o P. Suárez.
Justamente isso, como relata o padre Marchese, prometeu S. Bento a S.
Francisca Romana. Aparecendo-lhe um dia, prometeu-lhe que a protegeria
sempre como advogado junto à Mãe de Deus. Com o exposto concordam as
palavras de S. Anselmo: Senhora, o que a intercessão de todos os santos pode
obter unida convosco, pode obtê-lo a vossa sozinha sem o auxílio deles. E por que
é assim tão grande vosso poder? pergunta o Santo. Porque sois a Mãe do nosso
Salvador, a Esposa de Deus, a Rainha do céu e da terra. Santo algum pedirá por
nós e nos ajudará, se não falais em nosso favor. Mas no que o dignardes fazer,
empenhar-se-ão todos os santos em pedir por nós e nos socorrer.
As palavras do Eclesiástico (24,8): “Eu sozinha rodeei o giro do céu” – são aplicadas a Maria pela Igreja, e Ségneri assim as comenta: Assim como a primeira esfera12 com o seu movimento faz que todas as outras esferas se
movam, assim também o paraíso inteiro reza com Maria, quando ela se põe a
pedir por uma alma. Pacciuchelli diz até que a Virgem, como Rainha, ordena aos
anjos e santos que a acompanhem, e junto com ela dirijam suas preces ao
Altíssimo.
Entendemos assim finalmente o motivo por que a Santa Igreja nos
manda invocar e saudar a Divina Mãe com o grande título de “Esperança nossa”.
Afirmava o ímpio Lutero não poder suportar que a Igreja Romana chamasse
Maria, uma criatura, nossa esperança. Que só Deus e Jesus Cristo, como nosso
medianeiro, são nossa esperança; que, ao contrário, Deus amaldiçoa a quem põe
sua esperança nas criaturas – era o que o herege dizia. Mas a Igreja ensina-nos a
invocar constantemente Maria e saudá-la como nossa esperança. Aquele que põe
sua esperança na criatura, independentemente de Deus, é sem dúvida
amaldiçoado pelo Senhor. Pois tão somente ele é a única fonte e distribuidor de
todo o bem. Sem ele nada tem e nada pode dar a criatura. Mas, como temos
provado, conforme a determinação de Deus, todas as graças devem chegar até
nós por meio de Maria, como por um canal de misericórdia. Por conseguinte,
não só podemos como devemos confessar que ela é nossa esperança, porquanto
recebemos as graças por seu intermédio. Daí o título que lhe dá S. Bernardo “de
toda a razão de sua esperança”. O mesmo diz S. Damasceno dirigindo-se à
Santíssima Virgem com estas palavras: Em vós, Senhora, tenho colocado toda a
minha esperança e de vós espero minha salvação. Também S. Tomás sustenta
que Maria é toda a esperança de nossa salvação. Virgem Santíssima, exclama S.
Efrém, acolhei-nos sob a vossa proteção se salvos nos quereis ver; pois só por
vosso intermédio esperamos a salvação.
Concluamos então com as palavras de S. Bernardo: Procuremos
venerar com todos os afetos do coração Maria, Mãe de Deus, porque é vontade
do Senhor que de suas mãos recebamos todos os bens da graça. Sempre,
portanto, que desejarmos ou solicitarmos uma graça, tratemos, segundo o
conselho do Santo, de recomendar-nos a Maria e tenhamos confiança de obtê-la
por sua intercessão. E continua ele: Se tu não mereces a graça solicitada, bem a
merece Maria, que por ela se empenhará. Pelo que também nos aconselha que
recomendemos a Maria todas as obras e orações que oferecemos a Deus, se
queremos que ele as aceite.
13** EXEMPLO
É célebre a história de Teófilo,
14 escrita pelo clérigo Eutiquiano de
Constantinopla, como testemunha ocular que foi do fato que passo a relatar.
Segundo o padre Crasset, confirmam-no S. Pedro Damião, S. Bernardo, S.
Boaventura, S. Antonino e outros.
Era Teófilo arcediago da igreja de Adanas, na Cilícia. Tanto o estimava
o povo que o quis para bispo, dignidade que ele por humildade recusou.
Caluniado, porém, por alguns malvados, e por isso destituído de seu cargo, ficou
de tal maneira desgostoso, que, fora de si pela paixão, se foi valer do auxílio de
um mágico judeu. Pô-lo este em comunicação com o demônio, o qual prometeu
a Teófilo auxiliá-lo, mas sob a condição de assinar ele, de próprio punho, um
papel pelo qual renunciava a Jesus e Maria, sua Mãe. Acedeu Teófilo e assinou a
execrada renúncia. No dia seguinte o bispo reconheceu a falsidade das acusações
contra Teófilo e pediu-lhe perdão, restituindo-lhe o cargo que ocupara. Mas o
infeliz chorava sem cessar, tendo a consciência dilacerada de remorso pelo
enorme pecado que havia feito. Finalmente, vai à igreja, ajoelha-se diante da
imagem de Maria e lhe diz: Ó Mãe de Deus, não quero desesperar; ainda vós me
restais, vós que sois tão compassiva e poderosa para me ajudar. Durante quarenta
dias viveu chorando e invocando a Santíssima Virgem. Uma noite apareceu-lhe a
Mãe de misericórdia e disse-lhe: Que fizeste, Teófilo? Renunciaste à minha
amizade e à de meu Filho e te entregaste àquele que é teu e meu inimigo!
Senhora, respondeu Teófilo, haveis de me perdoar e de me obter o perdão de
vosso Filho.
Vendo Maria tão grande confiança, acrescentou: Consola-te, que vou
rogar a Deus por ti. Reanimado, redobrou Teófilo as lágrimas, as preces e as
penitências, conservando-se sempre aos pés da imagem de Maria. Reapareceu-
lhe a Mãe de Deus e amavelmente lhe diz: Teófilo, enche-te de consolação.
Apresentei a Deus tuas lágrimas e orações; de hoje em diante guarda-lhe
gratidão e fidelidade. Senhora minha, replicou o infeliz, ainda não estou
plenamente consolado; ainda conserva o demônio o ímpio documento em que
renunciei a vós e a vosso Filho; podeis fazer que me restitua. E eis que três dias
depois, acordando Teófilo à noite, achou sobre o peito o referido documento. No
dia seguinte foi à igreja e ajoelhando-se aos pés do bispo que justamente
oficiava, contou-lhe por entre soluços tudo quanto havia acontecido. Entregou-lhe
o ímpio documento, que o bispo fez queimar imediatamente diante dos fiéis
presentes, enquanto choravam todos de alegria, exaltando a bondade de Deus e a
misericórdia de Maria para com aquele pobre pecador. Teófilo, entretanto, voltou
à igreja de Nossa Senhora, onde no fim de três dias morreu contente e cheio de gratidão para com Jesus e sua Mãe Santíssima.
ORAÇÃO
Ó Rainha e Mãe de misericórdia, que concedeis as graças a todos aqueles que vos invocam, com tanta liberalidade porque sois Rainha, e com tanto amor porque sois nossa Mãe amantíssima; a vós hoje me encomendo, eu, tão pobre de merecimentos como carregado de dívidas para com a divina justiça. Em
vossas mãos, ó Maria, está a chave das misericórdias divinas. Não olvideis a
minha penúria e não me abandoneis em minha pobreza. Sois tão liberal com todos,
e acostumada a dar mais do que vos pedem. Mostrai a mesma liberalidade em
meu favor! Protegei-me, Senhora minha; eis o que vos peço. Nada receio se me
protegeis. Não temo os demônios, porque vós sois mais poderosa que todo o
inferno; não temo os meus pecados, porque vós, com uma só palavra que faleis a
Deus, podeis alcançar-me o perdão de todos eles. Tendo eu o vosso favor, não
temo nem mesmo a cólera de Deus; pois basta uma súplica vossa para aplacá-lo.
Enfim, se me protegeis, espero tudo, pois que tudo vós podeis. Ó Mãe de
Misericórdia, eu sei que tendes prazer e vos gloriais em ajudar os pecadores mais
miseráveis, e que os podeis ajudar, contanto que não sejam obstinados. Eu sou
pecador, mas não sou obstinado; quero mudar de vida. Podeis, pois, ajudar-me;
velai-me e salvai-me. Ponho-me hoje nas vossas mãos. Dizei-me o que hei de
fazer para dar gosto a Deus, que eu o quero fazer; e espero fazê-lo com vosso
socorro, ó Maria, minha Mãe, minha luz, minha consolação, meu refúgio, minha
esperança.
CAPÍTULO VI EIA, POIS, ADVOGADA NOSSA
I. Maria é advogada poderosa para todos salvar
1. Maria é todo-poderosa junto de Deus*
Tão grande é o prestígio de uma mãe, que nunca pode tornar-se súdita
de seu filho, ainda que ele seja monarca e tenha domínio sobre todas as pessoas
do seu reino. É verdade, sentado agora à direita de Deus Pai, no céu, reina Jesus
e tem supremo domínio sobre todas as criaturas e também sobre Maria. E o tem
mesmo como homem, diz Santo Tomás, por causa da união hipostática com a
pessoa do Verbo. Todavia, é também certo que nosso Redentor, quando vivia na
terra, quis humilhar-se a ponto de ser submisso a Maria. “E lhes estava sujeito”
(Lc 2,51). Sim, desde que Jesus Cristo se dignou escolher Maria por Mãe, estava
como Filho realmente obrigado a obedecer-lhe, diz S. Ambrósio. Os outros santos
– reflete Ricardo de S. Lourenço – estavam unidos à vontade de Deus, mas
também o Senhor se submeteu à sua vontade. Das outras virgens diz-se que
“seguem o Cordeiro por toda parte”. Porém de Maria dizer se pode que o
Cordeirinho de Deus a seguia, porque lhe foi submisso.
Daí concluímos que são as súplicas de Maria eficacíssimas para
obterem tudo quanto ela pede, ainda que não possa dar ordens a seu Filho no céu.
Pois os seus rogos sempre são rogos de Mãe. Tem Maria o grande privilégio de
ser poderosíssima junto ao Filho, diz Conrado de Saxônia. E por quê? Justamente
pela razão já apresentada, e que mais abaixo vamos examinar minuciosamente:
porque as súplicas de Maria são súplicas de Mãe. De onde as palavras de S.
Pedro Damião: A Virgem consegue quanto quer, no céu como na terra; até aos
desesperados pode dar esperança de salvação. O Santo chama o Redentor de
altar de misericórdia, onde os pecadores obtêm de Deus a graça do perdão. A
ele, Jesus, dirige-se Maria quando quer obter-nos alguma graça. O filho tanto
aprecia, porém, os rogos de sua Mãe e tanto deseja ser-lhe agradável, que sua
intercessão mais afigura uma ordem do que uma prece, e ela parece antes uma
Rainha do que uma serva, remata o Santo. Assim quer Jesus honrar sua querida
Mãe, que tanto o honrou em vida, prontamente concedendo-lhe tudo que pede ou
deseja. Belamente o exprime S. Germano nas suas palavras dirigidas à Virgem:
Sois onipotente, ó Mãe de Deus, para salvar os pecadores; não precisais de
recomendação alguma junto de Deus, pois que sois a Mãe da verdadeira vida. Não receia S. Bernardino de Sena concordar com a sentença de que “ao império de Maria todos estão sujeitos, até o próprio Deus”. Isto é, Deus lhe
atende os rogos como se fossem ordens. Exclama por isso Eádmero: Virgem, de
tal modo vos elevou o Senhor, que podeis obter para vossos servos todas as graças
possíveis; pois é onipotente vosso patrocínio, como assevera Cosmas de
Jerusalém. Maria, sim, sois onipotente – acentua Ricardo de S. Lourenço; pois
que, conforme as leis, deve a rainha gozar dos mesmos privilégios que o rei. Por
isso, colocou Deus toda a Igreja não só sob o patrocínio, senão também sob o
império de Maria, observa S. Antonino.
Convindo, portanto, à mãe o mesmo império que ao filho, com razão
Jesus, que é onipotente, tornou Maria todo-poderosa. Contudo, sempre será
verdade que o Filho é onipotente por natureza e a Mãe o é por graça. E isto se
verifica, porque, quando pede a Mãe, tudo lhe concede o Filho, como justamente
foi revelado a S. Brígida. Ouviu ela Jesus dizer a Maria: Minha Mãe, já sabes
quanto te quero; pede-me por isso o que quiseres, porque, seja qual for a tua
petição, não pode deixar de ser de mim ouvida. E que bela razão alegou o
Senhor! Minha Mãe, disse-lhe, nada me negavas na terra; é justo que nada eu te
negue no céu. Diz-se que Maria é onipotente; mas é do modo que se pode
entender de uma criatura, que não é capaz de atributo divino. Porque com seus
rogos obtém tudo quanto quer, é ela, pois, onipotente.
Com sobras de razão, portanto, ó excelsa advogada nossa, vos diz S.
Bernardo: Tudo se faz, se vós o quereis. Basta a vossa vontade para que tudo se
faça. Quereis elevar a uma alta santidade o mais abjeto dos pecadores? Em
vossa vontade está o fazê-lo. De Eádmero são estas palavras: Senhora, basta-vos
querer a nossa salvação e nós não podemos perecer. S. Alberto Magno põe na
boca de Maria palavras semelhantes: Devo ser rogada, para que queira; porque o
que eu quero é necessário que se faça.**
2. Maria é toda bondade para com os homens*
Considera S. Pedro Damião o grande poder de Maria e nestes termos implora a sua compaixão: Que vossa natural bondade e vosso poder nos levem a
ajudar-nos, porque tão misericordiosa haveis de ser, quão poderosa sois. Ó
Maria, querida advogada nossa, na rica piedade de vosso coração não podeis ver
infelizes sem que deles tenhais compaixão; e na riqueza de vosso poder junto de
Deus salvais a todos quantos protegeis. Dignai-vos também patrocinar nossa
causa, causa de infelizes que em vós põem suas esperanças. Se não vos
moverem nossos rogos, deixai-vos então levar pelo vosso bondoso coração, pelo
vosso grande poder ao menos. Pois de tanto poder enriqueceu-vos o Senhor, para
que tão misericordiosa fosseis em ajudar-nos, quão poderosa sois para fazê-lo. –
Mas disto nos assegura S. Bernardo, dizendo que Maria, tanto em poder como em misericórdia, é sumamente rica; assim como a sua caridade é poderosíssima,
também assim é piedosíssima para se compadecer de nós, como sem cessar no-
lo revela.
Enquanto Maria viveu na terra, seu constante pensamento, depois da
glória de Deus, era ajudar os necessitados. Sabemos que desde então já gozava o
privilégio de ser ouvida em tudo o que pedia. Haja em vista, por exemplo, o que
se passou nas bodas de Caná, na Galileia. Veio a faltar o vinho, com vexame e
contratempo então para os esposos. Cheia de compaixão, a Santíssima Virgem
pediu ao Filho que os consolasse com um milagre. Expôs-lhe a necessidade em
que se viam, dizendo: Eles não têm vinho (Jo 2,3). Respondeu-lhe Jesus: “Que há
entre mim e ti, mulher? A minha hora ainda não chegou”. Note-se que
aparentemente o Senhor sonegou a graça desejada por sua Mãe, com as palavras
acima citadas: Que importa a mim e a ti essa falta de vinho? Por enquanto não
convém fazer um milagre, cuja hora ainda não soou. Ela virá com o tempo de
minha pregação, no qual devo confirmar com milagres a minha doutrina.
Contudo, Maria, como se o Filho a tivesse atendido, disse aos criados: “Fazei tudo
o que ele vos disser!” Eia, ânimo, sereis consolados! E com efeito, Jesus Cristo
para dar gosto a Maria mudou a água em ótimo vinho. Mas como assim? Se o
tempo prefixado para os milagres era o da pregação, como é que, mudando a
água em vinho, antecipou Jesus os decretos divinos? A isso responderemos que
nada houve de encontro aos decretos divinos. De fato, geralmente falando, não
era ainda chegada a hora dos milagres. Entretanto já desde toda a eternidade
havia Deus estabelecido que jamais rejeitaria um pedido de sua Mãe. Ciente de
tal privilégio, disse Maria aos criados, apesar da aparente recusa de seu Filho, que
fizessem tudo o que ele lhes mandasse, como se a desejada graça já houvesse
sido outorgada. O mesmo diz um comentário de S. João Crisóstomo à sobredita
passagem: Não obstante ter o Senhor dado aquela resposta, todavia, para honrar
sua Mãe, não deixou de atender-lhe o pedido. É igual o comentário de S. Tomás:
Com as palavras “Não é chegada a minha hora”, quis Jesus mostrar que teria
diferido o milagre, caso qualquer outra pessoa lho tivesse pedido; mas porque a
Mãe o solicitou, fê-lo imediatamente. Segundo Barradas, são da mesma opinião
S. Cirilo de Alexandria e S. Ambrósio e também Jansênio, Bispo de Gandes.**
3. O grande poder de Maria funda-se na sua dignidade de Mãe de Deus*
É certo, em suma, que não há criatura alguma que obter nos possa tantas misericórdias, como esta boa advogada. Não só Deus a honra como sua serva dileta, mas sobretudo como sua verdadeira Mãe, diz Guilherme de Paris:
Uma só palavra de seus lábios é quanto basta para o Filho atendê-la.
À Esposa dos Cânticos, figura da Virgem Maria, diz o Senhor: “Ó tu que habitas nos jardins, os teus amigos estão atentos: Faze-me ouvir a tua voz”
(8,13). São os santos esses amigos; quando pedem alguma graça para seus
devotos, esperam obtê-la pela intercessão da sua Rainha. Pois, conforme o
demonstramos no capítulo V, graça nenhuma é dispensada sem a intercessão de
Maria. E como a obtém Maria? Uma palavra é o quanto basta ao Filho. “Faze-me
ouvir a tua voz!” É bem acertado o comentário de Guilherme de Paris à
mencionada passagem dos Cânticos. Imagina-se ele o Filho, dizendo à sua Mãe:
Ó tu que habitas nos jardins celestes, pede com toda a confiança; pois esquecer
não posso que sou teu Filho e que nada devo recusar à minha Mãe. Basta-me
ouvir tua voz; para o Filho é o mesmo te ouvir como te atender.
Ainda que Maria alcance as graças rogando, contudo ela roga com
certo império de Mãe. Portanto, devemos estar firmemente convictos de que
tudo alcança quanto pede e deseja para nós, observa Godofredo, abade. Tendo
Coriolano sitiado Roma, sua cidade natal, nem todos os rogos de seus concidadãos
e amigos conseguiram demovê-lo à retirada. Mas, assim que viu a seus pés sua
Mãe Vetúria, relata Valério Máximo, não pôde resistir e levantou o cerco. Mas
tanto mais poderosas que as de Vetúria são as súplicas de Maria junto a Jesus,
quanto mais grato e amoroso é esse divino Filho para com sua cara Mãe. Mais
vale perante Deus um único suspiro de Maria, que as orações de todos os santos
reunidos, escreve o dominicano Justino Micoviense. O próprio demônio
esconjurado por S. Domingos o confessava, por boca de um possesso, segundo
narra Pacciucchelli.
Na opinião de S. Antonino, as preces de Maria, como rogos de Mãe,
têm o efeito de uma ordem, sendo impossível que fiquem desatendidas. Por esta
razão S. Germano, animando os pecadores para que a ela se encomendem,
assim lhes fala: Vós tendes, ó Maria, para com Deus autoridade de Mãe e por
isso alcançais também o perdão aos mais abjetos pecadores. Em tudo
reconhece-vos o Senhor por sua verdadeira Mãe e não pode deixar de atender a
cada desejo vosso. Ouviu S. Brígida como os santos do céu diziam à Virgem:
Bendita Senhora, o que há que vos não seja possível? Tudo quanto quereis, se faz.
Com o que condiz o célebre verso:
O que Deus pode, mandando,
Virgem, o podeis, rogando,
E, porventura, não é coisa digna da benignidade do Senhor zelar com
tanto empenho a honra de sua Mãe? Não protestou ele mesmo ter vindo à terra
não para abolir, senão para observar a lei? Mas, entre outras coisas, não manda
essa lei honrar os pais? S. Jorge, Arcebispo de Nicomedia, acrescenta que Jesus
Cristo atende a todos os pedidos de sua Mãe, como que para saldar uma dívida
para com ela, que consentiu em lhe dar o ser humano. Eis a origem da
exclamação do Pseudo-Metódio, mártir: Alegrai-vos, ó Maria, a vós coube a dita
de ter por devedor aquele Filho que a todos dá, e de ninguém recebe. Somos todos devedores a Deus de quanto possuímos, pois que tudo são dons de sua bondade. Só de vós quis o próprio Deus tornar-se devedor, encarnando-se e em vosso seio fazendo-se homem. – Maria mereceu dar um corpo humano ao
Divino Verbo, desse modo apresentando o preço de redenção para nossas almas.
Por isso mais que todas as criaturas é ela poderosa para nos ajudar e obter a
salvação eterna. Sob o nome de Teófilo, Bispo de Alexandria, deixou-nos um
escritor o seguinte pensamento: O Filho estima que sua Mãe lhe peça, porque
quer conceder-lhe todas as graças, em recompensa do favor que ela lhe fez
dando-lhe o ser humano. Dirige, por isso, S. João Damasceno estas palavras à
Virgem: Sendo Mãe de Deus, ó Maria, a todos podeis salvar por vossa
intercessão, a qual a autoridade de Mãe faz poderosa.
A consideração do grande e divino benefício, pelo qual temos Maria por advogada, leva S. Boaventura a exclamar, e com ele terminamos: Ó bondade certamente imensa e admirável de nosso Deus! A vós, Senhora, quis ele nos dar
por advogada para que, a vosso arbítrio, tudo nos obtivesse vossa poderosa
intercessão. Ó grande misericórdia do Senhor! Sua própria Mãe, Senhora da
graça, no-la deu por advogada, a fim de que não fugíssemos com receio da
sentença que sobre nós há de pronunciar um dia.**
EXEMPLO
Vivia na Alemanha um senhor, que, tendo caído num pecado mortal, não era capaz de resolver-se à confissão, preso por falsa vergonha. Intoleráveis
se lhe tornaram por fim os remorsos e o infeliz andava com a sinistra intenção de
atirar-se à água. Não executou, por felicidade, seu intento, mas entre lágrimas
pedia a Deus que lhe perdoasse o referido pecado, mesmo sem confissão. Numa
noite, pareceu-lhe que alguém o tocava no ombro e lhe dizia: Vai confessar-te!
De fato, foi ele à igreja, mas não se confessou. Numa outra noite torna a ouvir a
mesma exortação. Indo novamente à igreja, disse: Prefiro morrer a confessar
meu pecado. Contudo, antes de voltar para casa, pôs-se a rezar diante de uma
imagem da Mãe de Deus. Eis que, em se ajoelhando, logo se lhe mudaram os
sentimentos. Levantou-se e procurou imediatamente um confessor. Fez em
seguida uma sincera e contrita confissão e agradeceu a Maria o grande favor que
lhe dispensara. Sentiu-se depois mais feliz do que se tivera em mãos os tesouros
do mundo.
ORAÇÃO
Falai, ó minha Senhora – dir-vos-ei com S. Bernardo, falai, porque
vosso divino Filho vos escuta, e tudo o que lhe pedirdes vo-lo concederá. Ó
Maria, advogada nossa, falai então em favor dos miseráveis pecadores. Lembrai-
vos de que é para nossa felicidade também que recebestes de Deus tão grande
poder e dignidade. Se um Deus se dignou fazer-se vosso devedor pela natureza
humana que de vós assumiu, é para que possais a vosso grado dispensar aos
miseráveis os tesouros da divina misericórdia. Vossos servos somos, dedicados de
modo especial a vosso serviço, e nos gloriamos de viver sob vossa proteção. Se
fazeis bem a todos os homens, ainda aos que não vos conhecem ou honram, e até
aos que vos ultrajam e blasfemam, que não devemos esperar de vossa benignidade
que busca os miseráveis para os socorrer, nós que vos honramos, amamos e
confiamos em vós?
Grandes pecadores nós somos, porém Deus vos deu misericórdia e poder que ultrapassam nossas iniquidades. Quereis e podeis salvar-nos; e nós tanto mais queremos esperar nossa salvação, quanto mais indignos dela somos, para mais vos glorificar no céu, quando lá entrarmos por vossa intercessão. Ó
Mãe de Misericórdia, nós vos apresentamos nossas almas, outrora aformoseadas e
lavadas pelo sangue de Jesus Cristo, mas depois enegrecidas pelo pecado. Nós vo-
las oferecemos; purificai-as. Alcançai-nos uma sincera conversão, o amor de
Deus, a perseverança, o paraíso. Grandes favores vos pedimos; mas não podeis
obter tudo? Seria muito para o amor que Deus vos tem? Bastante vos é abrir a
boca e implorar vosso Filho: ele nada vos recusa. Rogai, pois, ó Maria, rogai por
nós; intercedei por nós e sereis atendida e nós seremos salvos com certeza.
II. Como advogada compassiva
Maria defende as causas mais desesperadas
1. Maria ama-nos ternamente e de modo especial os pecadores*
Numerosos motivos forçam-nos a amar nossa amabilíssima Rainha.
Em toda parte louvassem-na, dela somente falassem em todos os sermões, a vida
dessem por ela todos os homens – tudo isso ainda pouco seria em comparação da
gratidão e amor que lhe devemos. Pois é terníssimo o amor que ela consagra a
todos os homens, mesmo aos mais infelizes pecadores, quando lhe conservam
algum afeto ou devoção. O abade de Celes – que por humildade tomou o nome
de Idiota – diz de Maria:
Não pode a Virgem deixar de amar quem a ama; não desdenha servir quem a serve. Se o servo é um pecador, empenha toda a sua poderosa intercessão para obter-lhe o perdão de seu Filho. Tamanha lhe é a bondade e tão grande a misericórdia,
Maria Vilas Boas:
desdenha servir quem a serve. Se o servo é um pecador, empenha toda a sua
poderosa intercessão para obter-lhe o perdão de seu Filho. Tamanha lhe é a
bondade e tão grande a misericórdia, que não repele quem a invoca. Na qualidade de amantíssima advogada nossa oferece a Deus as preces de seus
servos; pois, como o Filho intercede por nós junto ao Pai, assim ela intercede por
nós junto ao Filho. Não se cansa de tratar com o Pai e com o Filho o sério assunto
da nossa salvação. Singular refúgio dos perdidos, esperança dos miseráveis e
advogada de todos os pecadores que a ela recorrem – assim com muita razão a
chama Dionísio Cartusiano.
Possível é, entretanto, que um pecador ponha em dúvida não o poder,
mas a misericórdia de Maria; possível é que, vendo-se carregado de crimes,
desconfie de sua compaixão em ajudá-lo. Aqui o sossega e anima Conrado de
Saxônia, dizendo: Grande e singular é o privilégio que tem Maria perante seu
Filho de alcançar dele, com os seus rogos, tudo quanto quer. Mas de que
adiantaria, acrescenta Conrado, este grande poder de Maria, se ela nenhum
cuidado tivesse de nós? Mas, não; não duvidemos, tenhamos ânimo e
agradeçamos ao Senhor e à sua divina Mãe. Pois, assim como ela entre todos os
santos é a mais poderosa, de todos é também a mais amorosa e mais solícita de
nosso bem. Assim conclui o piedoso escritor: Quanto júbilo há na exclamação de
S. Germano: Quem jamais, ó Mãe de misericórdia, quem, depois de vosso Jesus,
mostrou como vós tanto zelo por nós e nosso bem? Quem como vós toma a
defesa dos pecadores e combate contra os seus inimigos? Poder e bondade
encontram-se em vosso patrocínio num grau que excede toda a compreensão.
Têm os santos poder para valer mais a seus devotos que aos outros, acrescenta o
abade de Celes; Nossa Senhora, porém, como é Rainha de todos, de todos é
também advogada e lhes cuida da salvação. Preocupa-se com todos, até com os
pecadores. Deles, especialmente, Maria se ufana de ser chamada advogada.
Disse-o ela mesma à venerável Maria Villani: Depois do título de Mãe de Deus,
lisonjeia-me ser chamada advogada dos pecadores.**
2. Maria intercede sem cessar pelos pecadores*
Afirma o Beato Amadeu que nossa Rainha está na presença da Divina
Majestade, continuamente intercedendo por nós com as suas poderosas orações.
Profunda conhecedora que é de nossas misérias e aflições, não pode desapiedar-
se de nós. Levada pelos sobressaltos de um coração maternal, compassivo e
benigno, procura como nos socorrer. A cada um de nós, por miserável que seja,
exorta por isso Ricardo de S. Lourenço a recorrer confiadamente a tão amável
advogada, na firme certeza de achá-la pronta a vir em nosso auxílio. Ela está
sempre disposta a orar por todos, escreve Godofredo, abade.
Oh! com quanta eficácia e amor, diz S. Bernardo, não trata esta nossa
advogada do problema de nossa salvação! Não cessa Conrado de Saxônia de
admirar o afeto e o empenho com que Maria continuamente intercede por nós
junto à Divina Majestade e para nós pede o perdão, o auxílio das graças e o livramento dos perigos, bem como a consolação nos sofrimentos. Em seguida a
ela se dirige nestes termos: Confessamos que no céu só temos a vós como única
solícita protetora. Quer ele dizer: É verdade que todos os santos interessam-se por
nossa salvação e pedem por nós; mas a caridade e ternura demonstrada por vós,
alcançando-nos tantas misericórdias de Deus, nos obrigam a declarar-vos como
nossa única advogada no céu, a única que no verdadeiro sentido da palavra é
amante e solícita de nossa salvação. E como é grande essa solicitude de Maria
em falar continuamente em nosso favor junto de Deus! Quem poderá medi-la
jamais? No ofício de proteger-nos não conhece a Virgem o que seja fadiga, diz S.
Germano. Que bela palavra! Maria roga e sempre torna a rogar por nós e não se
cansa de o fazer, para nos livrar dos males e nos obter as graças. A tal ponto
chega sua compaixão perante nossas misérias e seu amor para conosco!
Pobres pecadores! Que seria de nós, se não tivéramos esta grande
advogada! Quanto a considera seu Filho e nosso Juiz por causa da compaixão, da
prudência que nela encontra! Tanto a considera, que não pode condenar pecador
algum que se acha sob seu patrocínio, diz Ricardo de S. Lourenço. Por isso, João,
o Geômetra, a saúda dizendo-lhe: Salve, ó vós que sois o direito que resolve todas
as demandas! Isto é: Em toda demanda ganha aquele a cujo lado está essa mui
sábia advogada. De sábia Abigail lhe chama por isso Conrado de Saxônia. Essa
foi aquela mulher que soube tão bem aplacar com os seus eloquentes rogos o rei
Davi, quando estava irritado contra Nabal. E bendisse-a Davi, agradecendo-lhe
porque o livrara de vingar-se de Nabal com sua própria mão (1Rs 25,24ss).
Exatamente o mesmo faz Maria no céu, sem cessar, em favor dos inumeráveis
pecadores. Pois sabe muito bem com suas meigas e prudentes súplicas aplacar a
justiça de Deus. Louva-a por isso Deus e quase lhe agradece, porque o detém de
castigar os culpados como mereciam.**
3. Maria, a fiel cópia da misericórdia divina*
Foi para dispensar-nos todas as misericórdias possíveis, afirma S.
Bernardo, que o Eterno Pai, além de Jesus Cristo, nosso principal advogado, nos
deu ainda Maria Santíssima como advogada. Não há dúvida, Jesus é o único
medianeiro de justiça entre Deus e os homens, o único que em virtude dos
próprios méritos nos pode obter graça e perdão, e de acordo com suas promessas
também o quer. Mas como em Jesus Cristo reconhecem e temem os homens a
majestade divina, aprouve a Deus dar-nos outra advogada a quem recorrer
pudéssemos com maior confiança e menor receio. E temo-la em Maria, fora de
quem não acharemos outra nem mais poderosa para a Divina Majestade, nem
mais misericordiosa para conosco. Grande injúria faz à piedade desta amável
advogada quem se intimida de vir à sua presença. Pois ela nada tem de severo e
terrível, mas é toda suavidade, toda clemência, toda amabilidade. Lê e relê quanto quiseres, prossegue S. Bernardo, o que está escrito nos Santos Evangelhos,
e se encontrares um só ato de severidade em Maria, então teme chegar-te a seus
pés. Mas o não acharás em parte alguma. Recorre, pois, a ela alegre e
confiadamente, que por sua intercessão ela te salvará.
Belíssimas são as palavras que Guilherme de Paris faz o pecador
pronunciar diante de Maria: Ó Mãe de meu Deus! Reduzido à miséria por muitos
pecados, a vós recorro cheio de confiança. Se me repelirdes, mostrar-vos-ei que
estais em certo modo obrigada a ajudar-me, porque toda Igreja dos fiéis chama
e clama que sois Mãe de Misericórdia. Porque Deus muito vos quer, também
sempre atende vossos rogos. Jamais falhou vossa grande piedade; vossa
dulcíssima afabilidade repeliu nunca pecador algum, ainda de todos o maior, que
a vós se tenha recomendado. Como então? Será falsamente ou em vão que a
Igreja toda vos denomina advogada sua e refúgio dos miseráveis? Que minhas
culpas, ó minha Mãe, não vos impeçam de exercer esse grande ministério de
misericordiosa advogada e medianeira de paz entre Deus e os homens, como
seguro refúgio e única esperança dos miseráveis. A quem deveis vossa riqueza
em graça e em glória e mesmo vossa dignidade de Mãe de Deus? Posso dizê-lo?
Deveis aos pecadores tudo quanto possuís; por causa deles o Verbo de Deus vos
elegeu para sua Mãe.
Sois a Mãe de Deus, abristes para o mundo a fonte de piedade, e por
isso longe esteja de nós o pensamento de que fechar-se possa vosso compassivo
coração perante um miserável e abandonado. Assim, pois, já que é vosso ofício ser medianeira entre Deus e os homens, assisti-me pela vossa grande bondade, a qual é incomparavelmente maior que todos os meus pecados.
Consolai-vos, pois, ó tímidos, direi eu com Pacciucchelli; respirai e animai-vos, ó miseráveis pecadores! Essa Virgem excelsa, Mãe de vosso Deus e
vosso Juiz, é ao mesmo tempo advogada do gênero humano. Mas é uma
advogada competente que tudo pode junto de Deus; sapientíssima, porque
conhece todos os modos de aplacá-lo; universal, porque a todos socorre e a
ninguém recusa defender.**
EXEMPLO
Numa missão pregada pelos Padres Redentoristas, após o sermão de
Nossa Senhora, veio confessar-se um velho que não cabia em si de contente.
– Sr. Padre, Nossa Senhora me faz essa graça tão grande, disse o velho.
Mas que graça? perguntou-lhe o sacerdote. Ouça, reverendo:
Desde a idade de 35 anos me venho confessando sacrilegamente, só por vergonha de contar um pecado. Durante esse tempo estive à morte e, se então a morte me surpreendesse, estaria agora condenado. Mas hoje deu-me Nossa Senhora coragem. Dizia o pobre tudo isso por entre lágrimas que muito comoviam.
Depois da confissão, perguntou-lhe o missionário se venerava a Santíssima
Virgem com alguma prática religiosa. Contou-lhe o velho então que aos sábados abstinha-se de carne e por isso Nossa Senhora dele se compadecera. Ao mesmo
tempo autorizou a narração deste fato.
ORAÇÃO
Ó grande Mãe de meu Senhor, sei que a ingratidão que há anos tenho
usado com Deus e convosco, justamente merecia que deixásseis de ter cuidado de
mim; porque o ingrato é indigno de benefícios. Mas tenho, Senhora, em grande conceito vossa bondade; estou certo que ela é muito maior que a minha grande ingratidão. Continuai, pois, ó refúgio dos pecadores, e não deixeis de socorrer um miserável, que em vós confia. Ó Mãe de Misericórdia, dai a mão a um pobre caído, que recorre à vossa piedade a fim de se poder levantar. Ó Maria, ou
defendei-me ou dizei-me quem melhor que vós me possa defender. Mas onde
posso eu achar uma advogada junto a Deus mais compadecida, ou mais poderosa do que vós, que sois sua Mãe? Como Mãe do Salvador, nascestes para salvar os pecadores e a mim fostes dada para minha salvação. Ó Maria, salvai quem a vós recorre. Eu não mereço o vosso amor; mas o desejo que tendes de salvar os perdidos me faz esperá-lo. E amando-me vós, como me perderei? Ó minha Mãe
muito amada, se por vossa intercessão me salvo, como espero, nunca mais vos
serei ingrato. Compensarei com louvores perpétuos e com todos os afetos da
minha alma o meu passado esquecimento e o amor com que me tendes amado. No
céu, onde vós reinais, e reinais eternamente, sempre cantarei as vossas
misericórdias, e beijarei sempre aquelas vossas amorosas mãos, que tantas vezes
me têm livrado do inferno, quantas eu o tenho merecido com os meus pecados. Ó
Maria, minha libertadora, ó minha esperança, ó Rainha, ó advogada, ó minha
Mãe, eu vos amo, eu vos quero muito e sempre vos quero amar. Amém. Assim o
espero, assim seja.
III. Maria reconcilia os pecadores com Deus
1. Maria é Medianeira entre Deus e os homens*
É a graça de Deus um tesouro muito grande e muito desejável para todas as almas. O Espírito Santo lhe chama um tesouro infinito, pois por meio dela somos elevados à honra de amigos de Deus. “É ela um tesouro infinito para
os homens: do qual os que usaram têm sido feitos participantes da amizade de
Deus” (Sb 7,14). O Divino Salvador diz, por isso, aos que se acham no estado de
graça: Vós sois meus amigos (Jo 15,14). Ó maldito pecado, que rompes essa bela
amizade! “Vossas iniquidades separam-vos de Deus” (Is 59,2). Igualmente
aborrece o Senhor o ímpio e a sua impiedade (Sb 14,9). O pecado, tornando a a lma objeto de ódio para Deus, de amiga converte-a em inimiga de seu Senhor.
Mas que deve fazer um pecador que tem a desventura de viver presentemente na
inimizade de Deus? Precisa encontrar um medianeiro que lhe obtenha o perdão e
o faça recuperar a perdida amizade com Deus. Consola-te, ó infeliz, diz S.
Bernardo, que perdeste a Deus. Como medianeiro deu-te o próprio Senhor seu
Filho, Jesus Cristo, que pode atender a teus desejos. Que coisa haverá que um tal
filho não consiga junto a seu Pai?
Mas, ó meu Deus, por que aos homens parece tão severo esse
misericordioso Salvador, que, enfim, por salvá-los deu a sua vida? Assim
pergunta o Santo. Por que julgam terrível quem é tão amável? Que temeis,
pecadores sem confiança? Ofendestes a Deus, é verdade, mas sabeis que Jesus
pregou à cruz vossos pecados, com suas próprias mãos que os cravos
transpassaram. Assim purificou nossas almas e satisfez com sua morte a divina
justiça. Entretanto, recusais recorrer a Jesus Cristo, intimidados por sua
majestade; pois ele, ainda feito homem, não deixa de ser Deus. Quereis outra
advogada junto a esse medianeiro? Recorrei então a Maria! Por vós ela rogará
ao Filho e ele com certeza a ouvirá. E o Filho intercederá ao Pai, que nada pode
negar ao Filho. Termina o Santo dizendo: Filhos meus, essa divina Mãe é para os
pecadores uma escada pela qual podem de novo subir aos cimos da divina graça.
Maria é minha maior confiança; ela é a razão da minha esperança.
Eis o que o Espírito Santo faz dizer nos Cânticos à bem-aventurada
Virgem: Eu sou um muro e meu peito é uma torre, pois me tornei como uma que
acha a paz (8,10). Sou a defesa dos que a mim recorrem, diz Maria; e a minha
misericórdia lhes é um benefício, como uma torre de refúgio. E por isso o meu
Salvador me fez medianeira da paz entre os pecadores e Deus. Realmente é
Maria a pacificadora que obtém de Deus a paz para os pecadores, a misericórdia
para os desesperados – assim comenta o Cardeal Hugo. Seu divino Esposo a
chama por isso “bela como as tendas de Salomão” (Ct 1,4). Só de guerra se
tratava nas tendas de Davi; só de paz se tratava, ao contrário, nas tendas de
Salomão. Com essa comparação quer o Espírito Santo mostrar que essa Mãe de
misericórdia cogita, não de guerras e de vinganças contra os pecadores, mas tão
somente de paz e de perdão às suas culpas.
Tal é o motivo que faz da pomba de Noé uma figura de Maria. De volta à arca trouxe no bico um ramo de oliveira, como sinal da paz concedida aos
homens por Deus. Sois aquela fidelíssima pomba de Noé, exclama Conrado de
Saxônia, que, interpondo vosso valimento para com Deus, dele alcançastes a paz
e a salvação para o mundo perdido. Maria, pois, foi a celestial pomba que trouxe
ao mundo perdido o ramo de oliveira, sinal de misericórdia; porque ela nos deu
Jesus Cristo, que é fonte da mesma misericórdia. A ela devemos, em virtude dos merecimentos de Cristo Senhor, todas as graças que Deus nos concede. E assim
como por Maria foi dada ao mundo a verdadeira paz do céu, como diz S.
Epifânio, assim, por meio de sua mediação, os pecadores continuam a
reconciliar-se com Deus. Por isto S. Alberto Magno faz a Virgem dizer: Eu sou a pomba da arca de Noé, que trouxe à Igreja a paz universal.
Clara figura de Maria era também o arco-íris, do qual S. João (Ap 4,3)
viu cercado o trono de Deus. O Cardeal Vitale assim fala sobre esse arco-íris: É
Maria que assiste sempre perante o tribunal para mitigar as sentenças e os
castigos merecidos pelos pecadores. Conforme a explicação de S. Bernardino de Sena, era a Virgem também o arco-íris que Deus colocou nas nuvens e dele disse a Noé: Eu porei meu arco nas nuvens e ele será sinal da aliança entre mim e a
terra (Gn 9,13). Maria, diz o Santo, é este íris da eterna paz. Pois assim como
Deus à vista dele se lembra da paz prometida à terra, assim também pelos rogos de Maria perdoa aos pecadores as ofensas que lhe fazem, e com eles faz as
pazes.
Pela mesma razão ainda é Maria comparada à lua. “És bela como a
lua” (Ct 6,9). Aqui observa S. Boaventura: Tal como a lua paira entre a terra e o
céu, coloca-se Maria continuamente entre Deus e os pecadores para lhe aplacar
a ira contra eles e iluminá-los para que se voltem a Deus.**
2. Ameditação de Maria apoia-se na sua divina maternidade*
A principal missão de Maria quando veio à terra era a de levantar as
almas caídas da divina graça e reconciliá-las com Deus. “Apascenta teus
cabritos” (Ct 1,7) – disse-lhe, pois, ao criá-la, o Senhor. Como se sabe, os cabritos
são uma conhecida figura dos pecadores, que no vale do juízo serão postos à
esquerda, enquanto que as ovelhas figuram os eleitos, cujos lugares serão à
direita. Ora, esses cabritos, diz Guilherme de Paris, vos são confiados, ó grande
Mãe de Deus. Deveis convertê-los em ovelhas; os que por suas culpas
mereceriam ser repelidos para a esquerda, graças à vossa intercessão, sejam
colocados à direita. O Senhor revelou a S. Catarina de Sena que sua intenção, ao
criar essa sua dileta filha, era a de conquistar por sua doçura os corações dos homens, sobretudo dos pecadores, e atraí-los a si. Note-se, porém, aqui a bela
reflexão de Guilherme de Paris sobre a citada passagem dos Cânticos: “Diz o
Senhor: Apascenta teus cabritos”. Deus, portanto, encomenda a Maria os cabritos dela. Sim, Maria não salva todos os pecadores, mas tão somente os que a servem e invocam. Quanto aos que vivem no pecado, nem a honram com algum
especial obséquio, nem se lhe encomendam para sair do pecado, esses não são cabritos de Maria. No dia do Juízo serão miseravelmente relegados à esquerda com os condenados.
Oh! quantos pecadores obstinados atrai todos os dias para Deus “esse
ímã dos corações”, Maria! assim ela mesma se chama, dizendo a S. Brígida:
Semelhante ao ímã que atrai o ferro, a mim atraio os corações mais
empedernidos para reconciliá-los com Deus. E tal prodígios verifica-se não raras
vezes, mas todos os dias. Por mim posso atestar muitos casos observados em
nossas missões. Pecadores houve que se conservaram duros como pedra perante
todos os sermões. Mas arrependeram-se, voltaram a Deus, quando se lhes falou
da misericórdia de Maria. Conta S. Gregório que o unicórnio é de tanta
ferocidade que nenhum caçador consegue prendê-lo. Entretanto, à voz de uma
virgem que lhe grite, rende-se, chega-se e sem resistência deixa-se prender.
15 Sim, quantos pecadores fogem de Deus, mais ferozes que as mesmas
feras, mas à voz desta grande Virgem Maria se rendem, e dela se deixam
mansamente prender para Deus!
Na opinião de S. João Crisóstomo, Maria foi feita Mãe de Deus
também para que, por sua poderosa intercessão e doce misericórdia, se salvem os infelizes que por sua má vida não se poderiam salvar, segundo a justiça divina.
Sim, Eádmero garante que Maria, mais por amor dos pecadores que dos justos,
foi exaltada a ser Mãe de Deus. Pois o próprio Jesus Cristo protestou que viera
chamar não os justos, mas os pecadores. Canta-se, por este motivo, o verso:
Os pecadores não desprezais;
Pois sem eles veríeis jamais
Ser vosso Filho, Filho de Deus.
Guilherme de Paris ousa dizer: Ó Maria, tendes obrigação de ajudar os
pecadores, pois todos os vossos dons e as graças todas, toda a vossa grandeza,
contida na dignidade da Mãe de Deus, tudo, enfim – se me é lícito dizê-lo –,
deveis aos pecadores. Por amor deles dignou-se o Senhor fazer-vos sua Mãe.
Ora, se Maria se tornou Mãe de Deus em atenção aos pecadores, como posso eu
desesperar do perdão dos meus pecados, por enormes que sejam? Assim
argumenta Eádmero.
Na Missa da vigília da Assunção faz-nos a Igreja saber “que a Mãe de
Deus foi transferida deste mundo para interceder por nós junto a Deus, no céu,
com plena confiança de ser atendida”. Dá S. Justino a Maria o título de árbitra de
nossa sorte. O árbitro é mediador entre duas partes em contenda, que lhe
entregam a decisão sobre suas exigências. Com isso quer dizer o Santo: Como
Jesus é medianeiro junto ao Eterno Pai, assim Maria é nossa medianeira junto a
Jesus; a ela entrega o Filho todas as razões que tem contra nós como Juiz. S. André de Creta chama-a penhor e caução de nossas pazes com Deus. Isto
significa: Quer Deus reconciliar-se com os pecadores, perdoando-lhes; para que
não duvidem desse seu desejo, deu-lhes Maria como um penhor. Por isso saúda-a
assim o Santo: Salve, ó reconciliação de Deus com os homens!**
3. Maria cuida de cada um de nós*
S. Boaventura anima os pecadores nestes termos: Que deves fazer, se
por causa de teus pecados temes a vingança de Deus? Vai, recorre a Maria, que é a esperança dos pecadores. Estás, porém, receoso de que ela não queira tomar tua defesa? Pois então fica sabendo que é impossível uma tal repulsa; pois o próprio Deus encarregou-a de ser o refúgio dos pecadores.
É lícito a um pecador desesperar de sua salvação, quando a própria
Mãe do Juiz se lhe oferece por mãe e advogada? pergunta o Abade Adão de
Perseigne. E continua: Vós, ó Maria, que sois Mãe de Misericórdia, recusaríeis
interceder junto ao vosso Filho que é Juiz, por um filho vosso que é pecador? Em
favor de uma alma recusaríeis falar ao Redentor, que morreu na cruz para salvar
os pecadores? Não; não podeis fazê-lo; pelo contrário, de coração vos empenhais
por todos os que vos invocam. Pois sabeis perfeitamente que aquele Senhor, que
constituiu vosso Filho medianeiro de paz entre Deus e o homem, também vos
constituiu a vós medianeira entre o juiz e o réu. Agradece, portanto, ao Senhor
que te deu uma tão grande medianeira, exorta S. Bernardo. Por manchado de
crimes, por envelhecido que sejas na iniquidade, não percas a confiança, ó
pecador. Dá graças ao Senhor que em sua nímia misericórdia não só te deu o
Filho por advogado, senão também para aumento de tua confiança te concedeu
essa grande medianeira, cujos rogos tudo alcançam. Recorre, pois, a Maria e
serás salvo.**
EXEMPLO
Como narram os Anais da Companhia de Jesus, vivia em Bragança de
Portugal um moço que era associado da Congregação Mariana. Infelizmente,
deixou a Congregação e levou uma vida muito perdida. Chegou ao ponto de um
dia resolver-se a dar cabo da vida, atirando-se a um rio. Mas, antes de executar
seu tenebroso plano, lembrou-se em boa hora de recomendar-se a Nossa
Senhora. Disse-lhe: Outrora eu era mariano e levava uma vida piedosa. Ó Maria,
ajudai-me também agora. Pareceu-lhe então ver Nossa Senhora e ouvir as
palavras: Que vais fazer? Queres perder ao mesmo tempo a alma e o corpo? Vai, confessa-te e volta à Congregação mariana. O moço caiu em si. Agradeceu à
Santíssima Virgem a graça recebida e mudou de vida.
ORAÇÃO
É, pois, vosso ofício, ó minha dulcíssima Senhora, conforme as palavras
de Guilherme de Paris, ser medianeira entre Deus e os pecadores. Exercei vosso
ofício em meu favor, pedir-vos-ei com S. Tomás de Vilanova. Não digais que minha
causa é muito difícil de ganhar, porque sei que todos me afirmam que nenhuma
causa defendida por vós se perdeu, por mais impossível que parecesse o seu
vencimento. E perder-se-á a minha? Não, isto não temo eu. Só deveria temer que
não procurásseis defender-me, se olhasse somente para a multidão dos meus
pecados. Considerando, porém, vossa imensa misericórdia, e o sumo desejo que
reina em vosso dulcíssimo coração de socorrer os mais degredados pecadores,
nem mesmo esse receio posso ter. Quem se perdeu jamais, tendo implorado vosso
auxílio? Chamo-vos, pois, em meu socorro, ó minha grande advogada, meu
refúgio, minha esperança, ó minha Mãe Maria Santíssima! Em vossas mãos
entrego a causa de minha eterna salvação e deposito a minha alma. Ela estava
perdida, mas haveis de salvá-la. Muitas graças dou sempre ao meu Senhor, que
me dá essa grande confiança em vós; ela me assegura da minha salvação, apesar
da minha indignidade. Só me resta um temor que muito me aflige, ó minha amada
Rainha: é de vir eu a perder um dia, por negligência de minha parte, esta
confiança em vós. Rogo-vos, portanto, ó Maria, pelo amor que tendes ao vosso
Jesus, conservai e cada vez mais aumentai em mim esta dulcíssima confiança em
vossa intercessão. Por ela espero recuperar certamente a divina amizade, por
mim tão loucamente desprezada e perdida. E recuperando-a espero finalmente
pelos vossos rogos ir um dia render-vos por tudo as graças no paraíso, e ali cantar
as misericórdias do Senhor e as vossas por toda a eternidade. Amém. Assim o
espero, assim seja.
TRECHO DO LIVRO GLÓRIAS DE MARIA QUE NOSSA SENHORA MANDOU LER
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